Achados Econômicos

Vendas do setor automotivo têm maior queda dos últimos dez anos
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Sílvio Guedes Crespo

industria automoveis leonardo soares uol

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As vendas da indústria automotiva brasileira caíram 5,2% nos últimos 12 meses, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Nesse tipo de medição (em intervalos de 12 meses), o setor estava há mais de dez anos sem registrar uma queda tão acentuada. A última vez havia sido em fevereiro de 2004. Os dados incluem vendas de veículos, motos, partes e peças, e fazem parte da Pesquisa Mensal do Comércio, divulgada nesta quinta-feira.

vendas setor automotivo achados economicos

Note-se que a trajetória descendente da linha vermelha no gráfico não significa necessariamente queda das vendas. Em alguns casos, ela representa apenas diminuição do ritmo de crescimento. Por exemplo, em 2005, o setor cresceu 1,6%. Mas a linha está descendente naquele ano porque, em 2004, o crescimento havia sido de 18%.

Os pontos vermelhos no gráfico só representam recuo das vendas quando estão abaixo da linha horizontal preta.

Portanto, o setor estava em queda livre de 2001, quando se inicia esta série de dados, até 2003. Em abril de 2004, as vendas passaram a subir. Desde então, em alguns momentos elas cresciam mais; em outros, menos, mas sempre cresciam, até 2013. Foi somente em março de 2014 que elas voltaram a cair. Aqui, estamos falando sempre das vendas acumuladas em intervalos de 12 meses.

Resumindo a evolução da indústria automotiva no período desta série de dados, vemos que o setor, de 2001 a 2003, era pequeno (em comparação com hoje) e estava em queda. Atualmente, é bem maior do que há dez anos, mas, novamente, está recuando.

 

 


Em 12 meses, bancos fazem 4.500 débitos sem autorização de clientes, diz BC
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Sílvio Guedes Crespo

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Os bancos que atuam no país fizeram 4.529 débitos não autorizados nos 12 meses encerrados em julho, de acordo com o Banco Central.

Esse é o número de ocorrências que chegaram ao conhecimento do BC e foram consideradas procedentes. Ou seja, inclui apenas os casos em que o cliente percebeu o sumiço de uma quantia em sua conta e reclamou no Banco Central.

Se ocorreu algo semelhante com algum cliente que não notou ou preferiu não avisar, tal caso não aparece nessa estatística. Ainda, se o correntista reclamou com o seu gerente e resolveu a questão sem precisar passar pelo BC, também não entra nesse levantamento.

Essas ocorrências resultam, por exemplo, de pagamentos feitos sem que o cliente tenha optado por débito automático, de transferências de recursos sem autorização, ou, ainda, de aplicações financeiras realizadas sem que o correntista tenha solicitado.

Em números absolutos, a Caixa Econômica Federal foi o conglomerado que mais obteve reclamações sobre débito não autorizado nos últimos 12 meses. Foram 1.156 reclamações consideradas procedentes pelo BC.

Vale notar, no entanto, que a Caixa é a instituição financeira com o maior número de clientes: são, atualmente, 71,2 milhões de contas de depósito (o que inclui conta corrente, poupança e aplicações em CDB), entre pessoas físicas e jurídicas.

O Santander ficou em segundo lugar, em número absoluto de reclamações (1.045), seguido por Banco do Brasil (969) e Bradesco (620).

debitos nao autorizados - por banco

O ideal nessa comparação entre bancos, portanto, é considerar o número de erros como proporção ao número de clientes.

Nesse ponto, no entanto, esbarramos em um problema estatístico. A metodologia do Banco Central para contar os clientes mudou. Até junho, o BC contava como clientes somente aqueles que tinham conta de depósito garantida pelo FGC (Fundo Garantidor de Crédito). A partir de julho, o banco de dados foi aprimorado e passou a incluir na base de clientes todos os correntistas.

Então, a comparação entre bancos pode ser feita apenas com os dados de julho, ou então na série de dados antiga, que vai de março de 2002 a junho de 2014.

Considerando apenas julho, o Santander foi o que teve mais débitos não autorizados, em números absolutos. Foram 93 queixas consideradas procedentes, o que dá 3,4 para cada milhão de clientes com conta de depósito.

Débitos não autorizados – jul/14
BancoNúmero totalNº por milhão de clientes
Citibank23,74
Santander933,39
BB691,30
Caixa791,11
Itaú410,93
Bradesco590,86
HSBC50,65
Outros30,19

 

Vale observar que, quando comparamos bancos de tamanhos muito diferentes, os menores tendem a ser mais prejudicados pelo cálculo do índice por milhão de clientes. Por exemplo, o Citibank tem somente 543 mil clientes com conta de depósito. Se ele tivesse errado apenas uma vez, já ficaria com uma média de 1,9 queixa para cada milhão de clientes – posição pior do que a de qualquer grande banco, exceto o Santander.

Para quem quer mais informações sobre reclamações de clientes bancários, existe um ranking no site do Banco Central. Para formalizar alguma queixa sobre o seu banco, é preciso entrar na página de Atendimento ao Público ou ligar para 0800-979-2345 – ou, ainda, para 0800-642-2345, se a pessoa for surda ou tiver alguma deficiência auditiva ou de fala.

Outro lado

Procurados pelo blog, os bancos citados fizeram os comentários a seguir.

BB: “O Banco do Brasil vem conseguindo manter a tendência de queda na quantidade de reclamações reguladas. Quando analisada somente a causa ‘débitos não autorizados’, verifica-se a mesma tendência de queda já observada para o total de reclamações procedentes no Banco do Brasil. A quantidade do mês de julho nessa causa foi 26% inferior à média observada no 2º semestre de 2013, com manutenção da tendência de queda no período de ago/13 a jul/14”.

Bradesco: “O Bradesco desenvolve um programa intensivo de revisão de processos e sistemas. Cada um dos registros dos clientes é cuidadosamente avaliado e todas as medidas necessárias são tomadas no sentido de melhorar a qualidade do atendimento e garantir maior satisfação aos clientes”.

Citibank: “O Citi trabalha constantemente no aprimoramento do atendimento aos clientes. As eventuais reclamações são endereçadas pelos gerentes de conta, Citiphone Banking, SAC ou Ouvidoria para solução e retorno ao cliente”.

HSBC: “O HSBC avalia e responde a todas as demandas recebidas pelos canais oficiais de atendimento e atua para mitigar os pontos levantados nas avaliações dos seus clientes. O banco ressalta ainda que opera em consonância com a regulamentação vigente e segue os mais altos padrões de qualidade, acompanhando atentamente as recomendações dos seus clientes como oportunidades de melhoria contínua em seus serviços”.

Itaú: “O Itaú Unibanco tem como prática somente processar débitos após a devida solicitação ou autorização do cliente. Nesse sentido, as manifestações apresentadas ao Banco Central foram esclarecidas aos clientes após as devidas providências. Ressaltamos que em 2013 reduzimos as reclamações no BC sobre o item em questão, melhorando a comunicação e formalização desses pedidos. Mesmo com este cenário, continuaremos investindo esforços para aprimorar serviços e aumentar a satisfação de nossos clientes”.

Santander: “O Santander avalia individualmente todos os registros que chegam ao Banco Central e responde, formalmente, aos clientes e ao próprio BC. O banco ressalta que, para fortalecer o relacionamento com os clientes, incentiva a busca pelos canais internos, como agência, Central de Atendimento, SAC e Ouvidoria. No SAC, por exemplo, 85% das chamadas são solucionadas no momento do atendimento”.

A Caixa não enviou sua posição até o fechamento deste texto.


Conheça os 10 países mais competitivos da América Latina; Brasil é o 5º
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Sílvio Guedes Crespo

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O Fórum Econômico Mundial elaborou um ranking de competitividade entre 144 países. O primeiro lugar ficou com a Suíça.

O Brasil é o 57º do mundo e o 5º da região da América Latina e o Caribe.

É curioso observar que, se a gente considera o item em que o país vai melhor e os dois em que está pior, temos um pequeno resumo do que é a economia brasileira.

Dos 12 “pilares da competitividade” que o estudo analisou, o melhor resultado do Brasil é em “tamanho de mercado” (nono do mundo).

O pior é em “eficiência do mercado de bens” (123º), que avalia a intensidade da competição entre as empresas. Quem vai mal neste ponto são os mercados onde os empresários não têm muito com quem concorrer. Países protecionistas tendem a perder posições nesse item.

O segundo pior desempenho do Brasil é em “eficiência do mercado de trabalho”. Nesse pilar, o estudo considera a flexibilidade das leis trabalhistas. Quanto mais direitos de assalariados que atrapalhem o empregador, pior a posição do país.

Juntando esses três itens, temos, no caso brasileiro, um país que mantém uma ampla gama de direitos dos empregados e mesmo assim atrai investimentos, pois sua indústria recebe ajuda do Estado (com protecionismo, ela tem menos concorrentes) e o mercado interno é grande o suficiente para viabilizar diversos negócios.

Abaixo, a posição do Brasil no ranking mundial, em cada um dos 12 itens analisados pelo estudo.

clear1x1 grafico

Agora, as dez economias mais competitivas da região da América Latina e o Caribe, comparadas com o Brasil. Observação: o item “educação primária'' abrange o que nós chamamos aqui de ensino básico e fundamental; “educação superior'' inclui ensino médio, superior, pós e treinamentos diversos.

1. Chile

Economia mais competitiva da América Latina e 23ª do mundo. Seus pontos fortes são o “mercado financeiro'' (item no qual é o 19º do mundo), o “ambiente macroeconômico'' e as “instituições'' democráticas. Os itens com pior resultado são “saúde e educação primária'', “sofisticação das empresas'' e eficiência no mercado de trabalho.

2. Panamá

A economia panamenha é a 48ª mais competitiva do mundo, segundo o estudo. Seus pontos fortes são o “mercado financeiro'', a “infraestrutura'' e a “inovação''. O que reduz a competitividade é o “tamanho do mercado'' e a “eficiência do mercado de trabalho''.

3. Costa Rica

Em 54º lugar no ranking mundial, a Costa Rica tem a seu favor a “sofisticação das empresas'' e a capacidade de “inovação''. O “ambiente macroeconômico'' e o “mercado financeiro'' pesam contra.

4. Barbados

País minúsculo, Barbados é o 55º mais competitivo da América Latina, graças ao sistema de “saúde e educação primária'' de Primeiro Mundo (16º no ranking global) e à “infraestrutura'' (28ª). O “tamanho do mercado'' é o item que mais pesa contra a competitividade de Barbados, seguido por “ambiente macroeconômico''.

5. Brasil

À parte o que já foi falado, vale acrescentar que “educação'' média e superior é o item em que o Brasil tem seu segundo melhor resultado, ficando em 41º do ranking mundial.

6. México

A economia mexicana ficou atrás da brasileira no ranking do Fórum Econômico Mundial. Em 61º lugar no ranking mundial, o México vai bem em “tamanho de mercado'', “ambiente macroeconômico'' e “sofisticação dos negócios''. Os piores resultados foram em “instituições'' e “eficiência do mercado de trabalho''.

7. Peru

Em 65º do mundo, o Peru está bem em “ambiente macroeconômico'' e “mercado financeiro''. Seus piores resultados são em “inovação'' e “instituições''.

8. Colômbia

O país é o 66º mais competitivo do mundo, ajudado pelo “ambiente macroeconômico'' e “tamanho do mercado'', e prejudicado por suas próprias “instituições'' e “eficiência do mercado de bens''.

9. Guatemala

A economia guatemalteca é a 78ª do mundo em competitividade. Seu melhor resultado está na “eficiência do mercado de bens'' e no “mercado financeiro''. O pior reside nas suas “instituições''.

10. Uruguai

As “instituições'' uruguaias são o pilar competitivo mais forte do país, segundo o estudo, seguidas pela “penetração tecnológica''. O “tamanho do mercado'' joga contra a competitividade do Uruguai, assim como a “eficiência do mercado de trabalho''.


Gasto com empregado da indústria cresce 2 vezes mais que renda do dono
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Sílvio Guedes Crespo

Texto atualizado às 13h14*

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A indústria brasileira aumentou em 17,2% acima da inflação o gasto médio com o pagamento de cada assalariado entre 2007 e 2012. No mesmo período, as remunerações totais dos não assalariados – sócios – subiram 9,1%, de acordo com cálculos do blog Achados Econômicos feitos a partir do banco de dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

industria de 2007 a 2012

Em 2007, a indústria gastou R$ 165 bilhões com seus 6,9 milhões de empregados, em valor atualizado pelo índice oficial de inflação. Isso dá R$ 23,7 mil para cada funcionário no ano inteiro.

Em 2012, o setor despendeu R$ 230 bilhões com 8,3 milhões de assalariados, ou R$ 27,8 mil com cada um, em média.

Os gastos da indústria com todos os seus empregados, portanto, subiram 39,6% acima da inflação. O dispêndio com cada assalariado aumentou os 17% já mencionados. Nesses valores estão incluídos os salários mais os tributos.

Para a remuneração dos proprietários, a indústria destinou R$ 5,4 bilhões em 2007, em valor atualizado, e R$ 5,9 bilhões em 2012, uma alta de 9%.

Como os números vão apenas até 2012, eles não pegam a recente retração da economia brasileira, no primeiro semestre de 2014. Também não incluem a piora da produção industrial registrada no ano passado.

Mas evidenciam o que tem sido apontado como uma das causas da baixa competitividade da indústria, a saber, o aumento das despesas com salários.

No setor de serviços, quando os salários aumentam, os empresários têm mais facilidade de repassar o reajuste para os preços ao consumidor.

Já na indústria, fica mais difícil porque ela concorre com produtos de todo o mundo. Se um industrial brasileiro aumenta o preço, o consumidor pode recorrer a um produto similar importado.

Logo, o aumento de salários, se não for acompanhado por queda de outros custos, tende a reduzir os ganhos dos empresários da indústria, tornando o setor pouco atraente para novos investimentos.

Adendo

Alguns leitores comentaram que os gastos com folha de pagamento não significam, necessariamente, aumento de salários, pois eles podem ser resultados de elevação de impostos.

No caso dos dados aqui apresentados, no entanto, significam. Primeiro, porque não apenas não houve aumento de tributos sobre a folha de pagamento como houve, em alguns setores, desoneração desse tipo de contribuição e substituição por um imposto sobre o faturamento.

Em segundo lugar, há outras pesquisas que mostram aumento de salários na indústria. O Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) informou que 76,6% das negociações coletivas na indústria resultaram em aumento real de salário em 2008. A proporção foi de 79,3% em 2009, 87,8% em 2010, 86,9% em 2011 e 94,5% em 2012.

Ainda, a consultoria Mercer, em uma pesquisa feita no ano passado, constatou que funcionários de nível operacional tiveram uma alta nominal de 12,5% nos salários de 2012 para 2013.

Devo acrescentar, ainda, que neste texto não digo que aumento de salários não é bom, como pensaram alguns leitores. Somente afirmo que os gastos com assalariados subiram mais do que aqueles com não assalariados. (Fico pensando: se eu disser que está chovendo, as pessoas vão achar que eu sou a favor da chuva ou contra ela?)

Caso minha opinião interesse alguém, informo que defendo, como já fiz em outra ocasião, que a redução de custos dos produtos industriais brasileiros e o aumento da produtividade no setor, tão necessários hoje, podem ser feitos de outras formas, principalmente por meio da melhora na infraestrutura e na qualificação do trabalhador, que são soluções de médio e longo prazo.

O maior sinal de que é possível ser competitivo mesmo com alto custo do trabalho é o fato de que, na Europa e nos Estados Unidos, a hora dos empregados da indústria custa mais que o triplo do valor pago no Brasil. Embora muitas empresas tenham transferido parte da sua produção para países emergentes, ainda existe indústria, e de ponta, nas nações desenvolvidas.

* Acrescentado o item 'Adendo' às 13h14


PIB do Brasil cai mais que o de países europeus em crise; compare
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Sílvio Guedes Crespo

Atualizado às 10h53*

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É de se esperar que economias conhecidas como “emergentes” cresçam em um ritmo mais rápido que os mercados maduros. Mais ainda se os tais mercados maduros estão em crise.

Mas não é isso que está acontecendo neste ano. O PIB (produto interno bruto) do Brasil no segundo trimestre foi 0,6% menor do que no primeiro e 0,9% menor do que no segundo trimestre do ano passado, como informou o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Os resultados foram piores que o da maior parte dos países ricos que estão em crise.

Na comparação com o primeiro trimestre, a retração de 0,6% foi mais intensa do que a de qualquer dos países da zona do euro que já divulgaram seus números. Na Alemanha e na Itália, a queda foi de 0,2%. Na França, o PIB ficou estagnado.

A Grécia, que sofre para se recuperar de uma crise, não divulgou os dados do segundo trimestre em comparação com o primeiro. Informou, apenas, a variação em relação ao segundo trimestre do ano passado: uma queda de 0,2% – mais branda, portanto, que a do PIB brasileiro, de 0,9% no mesmo tipo de comparação.

Entre as grandes economias, o Japão foi a única que apresentou uma retração maior que a do Brasil, quando se compara o segundo trimestre com o primeiro. A economia japonesa encolheu 1,7% no período.

Na comparação entre o segundo trimestre deste ano e o período equivalente do ano passado, o PIB do Brasil encolheu mais do que o de qualquer grande economia, entre as que já divulgaram seus resultados, como aponta o gráfico abaixo.

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Entrevista

O professor de economia Otto Nogami, do Insper, concedeu ao blog a entrevista abaixo, a respeito do assunto.

O que a variação do PIB do Brasil significa em comparação com a de outros países?

É um resultado péssimo. Se compararmos com o contexto das principais economias mundiais, incluindo os emergentes e América Latina, a nossa performance é a pior [entre os países que já divulgaram os dados], excetuando-se o Japão, que está em uma crise que já dura 20 anos.

Esses números reforçam uma característica da maneira como o governo vem conduzindo a politica econômica nos últimos quatro anos. O governo age de maneira muito pontual, sem ações de médio e longo prazo que possam dar sustentação a um processo de crescimento.

Que ações poderiam levar ao crescimento de longo prazo?

Reduzir gastos públicos para diminuir a necessidade de financiamento do deficit e, consequentemente, ter mais recursos para o setor privado investir.

* Acrescentada a entrevista às 10h53


Com Petrobras, fundos de ações ganham mais de 50% em 5 meses; veja ranking
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Sílvio Guedes Crespo

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Quem investiu em fundos de ações em março, momento em que a Bolsa brasileira atingiu seu pior momento do ano, pode ter obtido um rendimento de mais de 50%, dependendo do fundo escolhido, conforme aponta um levantamento feito pela empresa ComDinheiro, a pedido do blog Achados Econômicos.

O Ibovespa, índice de referência do mercado de ações do país, subiu 30% desde o dia 14 de março (quando estava na sua pontuação mais baixa do ano) até o dia 19 de agosto (data do levantamento).

Dos 212 fundos analisados no levantamento, 28 tiveram um desempenho acima do Ibovespa. Os demais renderam menos, mas apenas três tiveram um rendimento negativo.

A Petrobras foi o destaque do período. Os 13 primeiros colocados do ranking são fundos que se concentram em papéis da estatal.

O campeão de rentabilidade foi um fundo chamado Sicredi FIA Petrobras, gerido pela Quantitas Gestão de Recursos, com alta de 57,6%, já descontados o Imposto de Renda e a taxa de administração.

Em segundo lugar está um fundo do HSBC (alta de 57,4%), e em terceiro, um do Bradesco (57,3%). No mesmo período, as ações mais negociadas da Petrobras (PETR4) avançaram 64%. Com Imposto de Renda, esse ganho cairia para 54%.

grafico1

Foram escolhidos apenas fundos abertos para investidores em geral e que tinham mais de 100 cotistas na data de análise.

2014

O investidor nunca pode perder de vista que o mercado de ações tem um risco alto e que o sucesso de um fundo em um determinado período nem sempre se repete em outros momentos.

O fundo que teve o melhor desempenho no período analisado acima havia caído muito nos meses anteriores. Foi uma queda de mais de 20% do início do ano até o dia 13 de março.

Por isso, se olharmos para um período maior – por exemplo, o acumulado de 2014 –, vemos que aquele fundo ficou não em primeiro, mas em nono lugar no ranking, com um rendimento de 28,5% (o que não é nada ruim, diga-se de passagem, em comparação com a alta de 22% da ação preferencial da Petrobras (PETR4) e 13,5% do Ibovespa.)

O gráfico abaixo mostra os 15 fundos de ações que deram os maiores retornos aos investidores desde o início do ano.

grafico2


Juro do cheque especial é o maior desde 2011, apesar de BC segurar taxa
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Sílvio Guedes Crespo

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Os juros que os bancos cobram das pessoas físicas continuam subindo, apesar de a taxa básica, definida pelo Banco Central, estar congelada em 11% ao ano desde abril e de a inadimplência ter se mantido no nível mais baixo dos últimos três anos.

Em julho, os bancos cobraram, em média, 172,4% ao ano para empréstimos no cheque especial, quase 10 pontos percentuais a mais do que em abril (161,8%). Com isso, a taxa de julho atingiu o maior patamar desde janeiro de 2011.

Os dados foram divulgados nesta terça-feira (26) pelo Banco Central.

taxa juros cheque especial historico

As taxas de juros para pessoas físicas têm subido em diversas modalidades, mas em menor intensidade em comparação com o cheque especial.

Desde abril, houve um leve aumento nas taxas para financiamento de imóveis (de 9,2% ao ano, naquele mês, para 9,7%, em julho),de veículos (de 22,6% para 23,1%) e de outros bens (de 77,3% para 78,6%).

Na média, as taxas de juros para pessoas físicas atingiram 28,2% ao ano em julho, maior nível desde abril de 2012. Para emprestar a pessoas jurídicas, os bancos cobraram, em média, 16% ao ano, mesma taxa verificada em abril.

A taxa básica de juros, chamada Selic, corresponde a quanto o governo paga para os bancos quando estes compram títulos públicos em operações de curto prazo. Ela acaba sendo mais baixa do que qualquer taxa para pessoas físicas e jurídicas porque emprestar para o governo é a operação mais segura possível. Se o governo, que é historicamente um bom pagador, dá 11% ao ano, por que um banco emprestaria a um cidadão que ele nem conhece pelos mesmos 11%?

Portanto, quando a taxa básica sobe, os juros para empresas e pessoas físicas tendem a subir junto. Nos últimos quatro meses, no entanto, a taxa básica está parada em 11%, enquanto os juros cobrados pelos bancos seguem avançando.

Isso ocorre apesar de a taxa de inadimplência não ter subido. Ela ficou em 3% em julho, mesmo nível verificado em abril. A inadimplência, aliás, está no nível mais baixo desde que o BC começou a fazer esse registro pela atual metodologia, em março de 2011.

taxa de inadimplencia

Repare que neste segundo gráfico as linhas não são exatamente redondinhas, muito menos retinhas. São cheias de pequenos altos e baixos. Somente quem observa os dados em um prazo mais longo, de um ou dois anos, é que tem uma noção da tendência da inadimplência.

Vejo muita gente comentando matérias que dizem “inadimplência sobe'', “inadimplência cai'', e quando você vai ver o texto, houve uma alta ou baixa de 0,1 ponto percentual em um determinado mês e em uma modalidade específica de crédito. Esse tipo de informação diz muito pouco sobre a tendência de médio e longo prazo e às vezes gera repercussão grande demais nos debates políticos das redes sociais.

Já nesse gráfico, vemos que a inadimplência vinha subindo até o primeiro semestre de 2012 e, desde então, passou a cair. Se considerarmos os últimos meses, a partir de janeiro de 2014, vemos que a taxa parou de cair.

Ganhos dos bancos

Ao mesmo tempo em que os bancos aumentaram as taxas de juros que eles cobram, reduziram as que eles pagam.

Em média, as instituições financeiras pagaram 9,1% ao ano para pessoas físicas que aplicaram seu dinheiro em abril. Em julho, essa taxa caiu para 8,8%.

Dito de outra forma, os ganhos dos bancos ao emprestar dinheiro alheio – os chamados “spreads” bancários – continuam subindo. A diferença entre a taxa de captação (a que as instituições financeiras pagam a quem lhe empresta dinheiro) e a de aplicação (a que elas cobram quando emprestam) era de 18,6 pontos percentuais em abril e passou para 19,4 em julho, no segmento de pessoas físicas.

spread bancario


Brasileiro produz menos que argentino e russo, e mais que chinês e indiano
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Sílvio Guedes Crespo

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O brasileiro produz, em média, menos do que o argentino, o mexicano e o russo, porém mais do que o chinês, o colombiano e o indiano, de acordo com dados do Conference Board, uma organização não-governamental de pesquisas econômicas com sede em Nova York.

De 2009 a 2013, cada brasileiro ocupado produziu, em média, bens e serviços a um valor equivalente a US$ 19,6 mil por ano. No mesmo período, o mexicano produziu US$ 36,6 mil, e o argentino, US$ 32,8 mil. Já o chinês produziu US$ 17 mil ao ano, enquanto o indiano, US$ 9,9 mil.

Produtividade em países selecionados
PIB (em US$) dividido pelo número de pessoas ocupadas
PaísMédia  anual 2009-2013
Qatar152.660
EUA112.312
França86.643
Reino Unido84.923
Alemanha78.777
Japão72.745
Portugal51.170
Chile39.594
México36.556
Rússia35.612
Argentina32.753
África do Sul30.928
Brasil19.599
Colômbia19.479
China17.025
Bolívia10.286
Índia9.883
Zimbábue437

 

O estudo do Conference Board calculou dividiu o o PIB (produto interno bruto) pelo número de pessoas ocupadas, para saber quanto cada uma delas produziu, em média, por ano.

A comparação usou dólares em paridade do poder de compra, uma medida que procura neutralizar a diferença do poder aquisitivo da moeda americana em cada país.

A lista tem mais de 180 países, mas não considero recomendável fazer um ranking geral, pois pode dar margem a interpretações incorretas.

O Qatar, por exemplo, aparece como o país mais produtivo no estudo do Conference Board. Sua população ocupada produz o equivalente a US$ 153 mil por anos. Talvez a primeira impressão de quem bate o olho nesses dados seja acreditar que os trabalhadores daquele país sejam os mais eficientes do mundo.

No entanto, o que acontece é que eles têm muito petróleo e gás natural, para uma população pequena. Basta um pequeno número de pessoas para furar um poço de petróleo e obter milhões de dólares. Apesar de o governo estar focado em desenvolver outros setores da economia, o óleo ainda representa parte considerável da economia local.

Trabalho

Produzir mais não significa, necessariamente, trabalhar mais. Para saber se o brasileiro trabalha mais ou menos do que determinado povo, é preciso considerar a média de horas trabalhadas por ano – o que o Conference Board também faz.

Segundo o estudo, cada brasileiro ocupado trabalha, em média, 1.839 horas por ano – mais do que o alemão (1.392), o francês (1.477), o inglês (1.661), o americano (1.707) e o japonês (1.753). Porém, menos do que o argentino (2.430), o mexicano (2.220) e o venezuelano (1.931).


Em dez anos, custo dos empregados da indústria quase quadruplica
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Sílvio Guedes Crespo

Atualizado às 17h06*

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O custo dos empregados na indústria brasileira disparou 264% de 2002 a 2012, segundo um estudo elaborado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).

As empresas do setor gastavam, em média, US$ 3,08 por hora trabalhada com cada um dos seus funcionários em 2002, considerando o salário mais os impostos. Dez anos depois, em 2012, o valor atingiu US$ 11,20, quase quatro vezes mais.

custo do trabalho brasil historico cni

Os números se referem ao que tecnicamente se chama “custo de compensação”, um conceito que a OIT (Organização Internacional do Trabalho) utiliza como sinônimo de custo do trabalho. A CNI, no entanto, ressalta que esses dados não incluem algumas despesas também relacionadas aos empregados, como os processos de recrutamento e seleção, os programas de treinamento e também a manutenção de refeitório para os empregados.

Conforme aponta o gráfico, o custo dos empregados da indústria despencou 57% entre 1996 (dado mais antigo da série) e 2002.

A partir de 2003, o indicador passou a subir continuamente até 2008, registrando, depois, uma leve queda em 2009, que foi mais do que compensada pelos aumentos nos dois anos seguintes.

Nota-se, no entanto, que em 2012 (dado mais recente) o custo do trabalho voltou a cair.

Como os valores estão em dólares, a variação do custo do trabalho é fortemente influenciada pelo câmbio. Quando o real sobe, como no período de 2003 a 2008, o custo do trabalho também sobe. Quando a moeda brasileira cai, caso do período de 1998 a 2002, o preço da mão de obra também desce.

Porque a indústria compete globalmente – seja quando exporta, seja quando concorre com produtos importados –, o valor em dólares é o que interessa quando estudamos a competitividade do setor.

Comparando com outros países, vemos que a hora trabalhada, no Brasil, é mais cara do que a de algumas outras nações emergentes, como o México, e mais barata do que a de economias maduras, como a zona do euro.

custo do trabalho paises cni

O estudo foi elaborado pela CNI e, portanto, traz o ponto de vista dessa entidade, que representa os empresários industriais. Sendo assim, faz sentido que se fale em custo do trabalho, e não em ganho do trabalhador.

Em determinado momento da análise, os pesquisadores fazem uma observação em relação a isso, dizendo que é positivo que os salários cresçam, mas que, quando isso ocorre sem que a produtividade acompanhe no mesmo ritmo, o aumento do custo do trabalho pode até inviabilizar determinadas atividades.

Opinião

É necessário sempre levar em conta que, se de um lado temos o custo do trabalho, de outro temos o ganho do trabalhador – e mais os impostos, que podem ser revertidos em serviços para a população, desde que as pessoas se interessem por discutir questões públicas de forma racional.

O aumento do custo do trabalho de 2002 a 2012 foi fortemente influenciado pelo câmbio. A cotação do dólar, que encostou em R$ 4 em 2002, terminou o ano de 2012 a R$ 2,04.

Essa enorme valorização do real gerou um custo nada desprezível para empresas que concorrem globalmente.

Tal aumento de custo representou também uma melhora da renda dos trabalhadores, o que é desejável, especialmente em um país de enorme desigualdade social.

O caso é que, no período de 2004 a 2010, com uma interrupção em 2009 por causa da crise iniciada nos Estados Unidos, os empresários da indústria conseguiram dar aos trabalhadores aumentos acima da inflação e, mesmo assim, o setor continuou crescendo.

Naquela época, entravam muitos dólares no país, por meio de exportações crescentes para a China e por investimentos estrangeiros no Brasil. Consequentemente, o real foi se valorizando, de modo que os salários passaram a valer mais em dólares. Além disso, havia uma política econômica que deu confiança a investidores, pois as metas de inflação eram cumpridas e o governo reservava uma quantia para pagar juros que os investidores consideravam, quando não ideal, ao menos aceitável.

Quando a economia da China passou a desacelerar, é como se alguém tivesse tirado uma peça de uma máquina que até então estava funcionando. Os chineses diminuíram o ritmo de aumento das compras de produtos brasileiros. Para piorar, a Europa, um dos principais importadores das nossas mercadorias, não consegue se recuperar da crise. Os Estados Unidos ora parecem melhorar, ora dão sinais de que ainda vão mal. Adicionalmente, a Argentina, outro grande parceiro comercial do Brasil, ergueu barreiras para alguns de nossos produtos.

Internamente, em vez de arrumar a casa, criando um ambiente para tornar o país mais propício para investimentos, o governo preferiu adiar os ajustes – que certamente seriam impopulares – e fazer apenas remendos para segurar as pontas.

Por exemplo, o país precisaria cortar gastos públicos para poder pagar dívida e também para não pressionar tanto a inflação. Mas o governo preferiu não cortar gastos, provavelmente esperando que a situação internacional melhorasse e tudo voltasse a ficar mais parecido com os anos Lula. Ou então está só aguardando as eleições para tomar as medidas impopulares em 2015.

De qualquer maneira, o cenário internacional melhorou muito pouco. Como o governo não cortou gastos, a quantia que o setor público reserva para pagar juros (o chamado superavit primário) não atingiu as metas, o que gera desconfiança nos investidores.

Além disso, sem corte de gastos, a inflação está sendo segurada com decisões como a de obrigar a Petrobras a vender gasolina por um preço mais barato do que o que a empresa gasta para importar o combustível. (Essa questão é particularmente interessante, porque a Petrobras vende gasolina barata, mas os postos a vendem bem mais cara, seja por causa de impostos ou de lucro, mas esse assunto eu já discuti em outro post.) Tudo isso gera desconfiança no mercado e afugenta investidores. Não em todos os setores, mas em parte deles.

No tempo em que a economia estava crescendo bem, o período entre 2004 e 2010 (com breve interrupção em 2009 por causa da crise bancária iniciada nos EUA), a inflação era tranquilamente controlada pelo câmbio. O real foi se valorizando devido à forte entrada de dólares, e isso deixou os produtos importados mais baratos.

Agora, no entanto, se o real continuasse subindo, a indústria seria sufocada, pois os custos, quando convertidos para dólares, iriam aumentar demais e tornar as empresas menos competitivas.

A CNI propõe o corte de impostos sobre salários, como forma de se tornar um pouco mais competitiva. Isso é positivo, mas devemos lembrar que toda redução impostos deve ser acompanhada de diminuição de despesas, ou seja, de medidas impopulares. A questão é de onde o governo tiraria dinheiro para pagar as aposentadorias, se a contribuição previdenciária que a indústria paga for cortada.

Se o preço das horas pagas cresce mais do que a produtividade, teríamos duas opções: reduzir o preço da hora ou aumentar a produtividade. O gráfico mostrado no estudo da própria CNI diz que na zona do euro o custo do trabalhador é mais do que o triplo daquele que existe no Brasil. Mesmo assim, a Europa é sede de inúmeras indústrias de ponta, dos aviões Airbus aos veículos BMW, passando por gigantes do petróleo como a Total e a BP, farmacêuticas como a Roche e muitas outras.

Verdade que muito do que essas companhias produzem está em países emergentes, mas uma parte ainda está no país sede, mesmo com trabalhadores ganhando bem mais do que os daqui. Sinal de que o foco das políticas para o setor tem que estar no aumento da produtividade, não na redução dos salários.

* Acrescentado o item 'Opinião' às 17h06


Há 20 anos, arroz custava R$ 0,64, e carro popular, R$ 7.200; relembre
Comentários 24

Sílvio Guedes Crespo

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O real completou no mês passado 20 anos em circulação. Em 1º de julho de 1994, quando a moeda foi lançada, o litro da gasolina custava R$ 0,55, e a passagem de ônibus em São Paulo, R$ 0,50.

Isso não quer dizer necessariamente que o brasileiro tenha perdido poder de compra. Ao contrário, muitos ganharam. O salário mínimo era de R$ 64,79 em julho de 1994 e atualmente é de R$ 724, ou seja, aumentou 1.017%. Já os preços ao consumidor subiram, em média, 362% no período, segundo o índice oficial de inflação (para quem não acredita no índice de inflação, recomendo ler isto antes de comentar: http://uol.com/bmdMrd).

Relembre o preço de 14 produtos em 1994.

1. Arroz: R$ 0,64 o quilo

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O quilo de arroz custava R$ 0,64 em julho de 1994, em São Paulo, segundo o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos). Já o feijão saía por R$ 1,11. Hoje, os produtos custam R$ 2,57 e R$ 3,81, respectivamente. Há 20 anos, o salário mínimo comprava 37 quilos de arroz e feijão; hoje, compra 113 quilos de cada.

2. Pão francês: R$ 0,09

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O pão francês saía, em média, por nove centavos cada unidade quando o real começou a circular, também de acordo com dados do Dieese. Hoje o produto é vendido por peso, e o quilo está cerca de R$ 9,66 em São Paulo. Considerando que uma unidade pese 50 gramas, o pão francês está em torno de R$ 0,50. O salário mínimo comprava 758 pães em 1994, e hoje compra 1.499.

3. Filé mignon: R$ 6,80 o quilo

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O preço do filé mignon subiu 438% desde julho de 1994, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Em uma busca em sites de supermercados, este blog encontrou filé fresco a R$ 28,90 (o mais barato) e a R$ 44,51 o quilo (o mais caro encontrado). Tirando a média e descontando a inflação, pode-se estimar que, em 1994 esse corte custava em torno de R$ 6,80 o quilo. O salário mínimo comprava, portanto, nove quilos de filé mignon; hoje, compra 20.

4. Gol 1.0: R$ 7.243

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Na foto, da esquerda para a direita, o modelo 1994 dos veículos: Escort Hobby 1.0 (R$ 7.386 à época), o Gol 1.000 (R$ 7.243), o Uno Mille (R$ 7.254) e o Corsa Wind 1.0 (R$ 7.350). Eles eram os carros mais baratos da Ford, Volkswagen, Fiat e Chevrolet. Na média, esses quatro veículos custavam R$ 7.308, ou 113 salários mínimos, em 1994. Atualmente, a versão mais simples dos modelos mais baratos de cada uma dessas montadoras custa, em média, R$ 30.444, ou 42 salários mínimos.

5. Uísque Jack Daniel’s: R$ 33,50

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As lojas Depósito Normal, em São Paulo,  anunciavam o Jack Daniel’s Tenessee Whiskey por R$ 33,50 há 20 anos. No site do supermercado Extra, o produto aparece hoje por R$ 99,65. O salário mínimo quase comprava duas garrafas no início do real e hoje compra sete.

6. Cinema: R$ 5

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O ingresso para o filme “Um tira da pesada 3”, com Eddie Murphy, custava R$ 5 no Shopping Iguatemi, em São Paulo, em um domingo à noite em 1994. Um salário mínimo comprava quase 12 ingressos. Hoje, no mesmo shopping e no mesmo horário, pode-se assistir a “Planeta dos macacos – o confronto”, por R$ 29 a entrada inteira. O atual salário mínimo adquire perto de 25 ingressos.

7. Show do Chitãozinho e Xororó: R$ 15

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Chitãozinho e Xororó, em agosto de 1994, fizeram um show no Palace, onde tocaram “Evidências” e “Fio de cabelo”. O ingresso mais barato saiu por R$ 15, e o mais caro, por R$ 35. O salário mínimo dava para quatro pessoas na pista ou uma no camarote. A comparação de preço de shows é sempre imprecisa, pois, com o tempo, alguns artistas passam a valer mais, e outros, menos. Mas não custa informar que, em 9 de agosto deste ano, a dupla se apresentou no Espaço das Américas, na Barra Funda, e o ingresso custou de R$ 75 a R$ 180. O salário mínimo atual compra nove entradas para o setor mais barato e quatro para o mais caro.

8. Ônibus: R$ 0,29 a R$ 0,54

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Teresina e João Pessoa tinham o passe de ônibus mais barato entre as capitais do país em julho de 1994: R$ 0,29. A passagem mais cara era em Brasília, R$ 0,54. O salário mínimo comprava 129 passes em São Paulo e hoje, a R$ 3, compra 241.

9. Gasolina: R$ 0,55 o litro

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O litro da gasolina estava R$ 0,55, em média, nos postos de São Paulo no dia 18 de julho de 1994, segundo uma reportagem da Folha à época. O álcool saía por R$ 0,44. Hoje, a gasolina está R$ 2,815, e o etanol, R$ 1,839. O salário mínimo, portanto, comprava 117 litros de gasolina e hoje compra 257.

10. Rodízio: R$ 13 a R$ 24

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Uma refeição na churrascaria Fogo de Chão, em São Paulo, saía entre R$ 13 e R$ 24 por pessoa em 1994, segundo a Revista da Folha. O salário mínimo bancava, então, entre duas e cinco pessoas. Já no Almanara, gastava-se até R$ 12 por pessoa, e no Bargaço, de R$ 25 a R$ 35. Hoje, o rodízio na Fogo de Chão está R$ 112 por pessoa. O atual salário mínimo paga refeição para até seis pessoas na churrascaria.

11. Apartamento de três dormitórios: R$ 94.340

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A imagem acima é da planta de um apartamento que estava sendo anunciado por R$ 94.340, no dia 7 de agosto de 1994, o que dava 1.456 salários mínimos na época. O imóvel ficava no primeiro andar de um edifício no bairro do Morumbi, em São Paulo. Quem fechasse o negócio ganharia uma viagem para Nova York. A área somava 211 metros quadrados. O apartamento tinha três dormitórios (sendo uma suíte), varanda com churrasqueira e duas vagas na garagem. Hoje, fazendo uma busca no site Zap por apartamentos de três quartos (sendo uma suíte), com cerca de 200 metros quadrados de área, duas vagas, no mesmo bairro, surgiram 17 unidades cujos proprietários pedem entre R$ 600 mil e R$ 800 mil, o que dá algo entre 800 e 1.100 salários mínimos. Mas não é possível dizer se aumentou ou não poder de compra do salário mínimo em relação a imóveis apenas com esses dados, pois cada apartamento traz características muito peculiares, como a localização exata, a vista, as instalações do prédio, o andar etc.

12. Óculos Ambervision: R$ 39,95

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Os óculos Ambervision, produto que “bloqueia até 100% dos raios ultravioleta” e tem um “design avançado unissex”, custavam URV 39,95. Para quem nasceu depois, a URV, Unidade Real do Valor, era uma moeda imaterial que serviu para as pessoas irem se acostumando com o real antes de este ser lançado. As pessoas recebiam e pagavam em cruzeiros reais, mas o comércio informava também qual era o preço em URV, unidade que depois daria lugar ao real. Em tese, tudo o que custava URV 1 em 30 de junho de 1994 deveria passar a custar R$ 1 a partir de 1º de julho. Mas vários comerciantes aumentaram os preços na virada do mês. Caso o Grupo Imagem Teleshop, responsável pelo Ambervision, não tenha sido um deles, o salário mínimo comprava apenas um óculos. Mas se ligasse “agora mesmo”, pagaria um e levaria dois. O Ambervision não existe mais.

13. Tele-Amizade: R$ 3,49 por minuto

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Em 1994, quem quisesse conhecer pessoas poderia ligar para o Tele-Amizade, pagando R$ 3,49 por minuto (interurbano grátis). Com um salário mínimo, era possível falar durante 18 minutos. Hoje, as pessoas fazem amigos e marcam encontros pela internet, pagando um preço fixo pelo acesso, independentemente do tempo gasto.

14. Dólar: R$ 1,00

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O dólar era vendido a R$ 1,00 em 1º de julho de 1994, pela Ptax, uma forma de calcular a cotação, elaborada pelo Banco Central. Exatos 20 anos depois, a moeda americana saía por R$ 2,2054. No início do real, o salário mínimo valia US$ 64,79. Hoje, está em US$ 328,29. Aqui, cabe uma observação: o dólar também perde poder de compra com o tempo. Portanto, US$ 64,79 há 20 anos valiam mais do que os mesmos US$ 64,79 hoje. Em outra ocasião, calculei o ganho do salário mínimo do Brasil convertido para dólares e descontando a inflação dos Estados Unidos (http://uol.com/bhdRqR).