Achados Econômicos

PIB do Brasil cai mais que o de países europeus em crise; compare
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Sílvio Guedes Crespo

Atualizado às 10h53*

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É de se esperar que economias conhecidas como “emergentes” cresçam em um ritmo mais rápido que os mercados maduros. Mais ainda se os tais mercados maduros estão em crise.

Mas não é isso que está acontecendo neste ano. O PIB (produto interno bruto) do Brasil no segundo trimestre foi 0,6% menor do que no primeiro e 0,9% menor do que no segundo trimestre do ano passado, como informou o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Os resultados foram piores que o da maior parte dos países ricos que estão em crise.

Na comparação com o primeiro trimestre, a retração de 0,6% foi mais intensa do que a de qualquer dos países da zona do euro que já divulgaram seus números. Na Alemanha e na Itália, a queda foi de 0,2%. Na França, o PIB ficou estagnado.

A Grécia, que sofre para se recuperar de uma crise, não divulgou os dados do segundo trimestre em comparação com o primeiro. Informou, apenas, a variação em relação ao segundo trimestre do ano passado: uma queda de 0,2% – mais branda, portanto, que a do PIB brasileiro, de 0,9% no mesmo tipo de comparação.

Entre as grandes economias, o Japão foi a única que apresentou uma retração maior que a do Brasil, quando se compara o segundo trimestre com o primeiro. A economia japonesa encolheu 1,7% no período.

Na comparação entre o segundo trimestre deste ano e o período equivalente do ano passado, o PIB do Brasil encolheu mais do que o de qualquer grande economia, entre as que já divulgaram seus resultados, como aponta o gráfico abaixo.

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Entrevista

O professor de economia Otto Nogami, do Insper, concedeu ao blog a entrevista abaixo, a respeito do assunto.

O que a variação do PIB do Brasil significa em comparação com a de outros países?

É um resultado péssimo. Se compararmos com o contexto das principais economias mundiais, incluindo os emergentes e América Latina, a nossa performance é a pior [entre os países que já divulgaram os dados], excetuando-se o Japão, que está em uma crise que já dura 20 anos.

Esses números reforçam uma característica da maneira como o governo vem conduzindo a politica econômica nos últimos quatro anos. O governo age de maneira muito pontual, sem ações de médio e longo prazo que possam dar sustentação a um processo de crescimento.

Que ações poderiam levar ao crescimento de longo prazo?

Reduzir gastos públicos para diminuir a necessidade de financiamento do deficit e, consequentemente, ter mais recursos para o setor privado investir.

* Acrescentada a entrevista às 10h53


Com Petrobras, fundos de ações ganham mais de 50% em 5 meses; veja ranking
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Sílvio Guedes Crespo

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Quem investiu em fundos de ações em março, momento em que a Bolsa brasileira atingiu seu pior momento do ano, pode ter obtido um rendimento de mais de 50%, dependendo do fundo escolhido, conforme aponta um levantamento feito pela empresa ComDinheiro, a pedido do blog Achados Econômicos.

O Ibovespa, índice de referência do mercado de ações do país, subiu 30% desde o dia 14 de março (quando estava na sua pontuação mais baixa do ano) até o dia 19 de agosto (data do levantamento).

Dos 212 fundos analisados no levantamento, 28 tiveram um desempenho acima do Ibovespa. Os demais renderam menos, mas apenas três tiveram um rendimento negativo.

A Petrobras foi o destaque do período. Os 13 primeiros colocados do ranking são fundos que se concentram em papéis da estatal.

O campeão de rentabilidade foi um fundo chamado Sicredi FIA Petrobras, gerido pela Quantitas Gestão de Recursos, com alta de 57,6%, já descontados o Imposto de Renda e a taxa de administração.

Em segundo lugar está um fundo do HSBC (alta de 57,4%), e em terceiro, um do Bradesco (57,3%). No mesmo período, as ações mais negociadas da Petrobras (PETR4) avançaram 64%. Com Imposto de Renda, esse ganho cairia para 54%.

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Foram escolhidos apenas fundos abertos para investidores em geral e que tinham mais de 100 cotistas na data de análise.

2014

O investidor nunca pode perder de vista que o mercado de ações tem um risco alto e que o sucesso de um fundo em um determinado período nem sempre se repete em outros momentos.

O fundo que teve o melhor desempenho no período analisado acima havia caído muito nos meses anteriores. Foi uma queda de mais de 20% do início do ano até o dia 13 de março.

Por isso, se olharmos para um período maior – por exemplo, o acumulado de 2014 –, vemos que aquele fundo ficou não em primeiro, mas em nono lugar no ranking, com um rendimento de 28,5% (o que não é nada ruim, diga-se de passagem, em comparação com a alta de 22% da ação preferencial da Petrobras (PETR4) e 13,5% do Ibovespa.)

O gráfico abaixo mostra os 15 fundos de ações que deram os maiores retornos aos investidores desde o início do ano.

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Juro do cheque especial é o maior desde 2011, apesar de BC segurar taxa
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Sílvio Guedes Crespo

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Os juros que os bancos cobram das pessoas físicas continuam subindo, apesar de a taxa básica, definida pelo Banco Central, estar congelada em 11% ao ano desde abril e de a inadimplência ter se mantido no nível mais baixo dos últimos três anos.

Em julho, os bancos cobraram, em média, 172,4% ao ano para empréstimos no cheque especial, quase 10 pontos percentuais a mais do que em abril (161,8%). Com isso, a taxa de julho atingiu o maior patamar desde janeiro de 2011.

Os dados foram divulgados nesta terça-feira (26) pelo Banco Central.

taxa juros cheque especial historico

As taxas de juros para pessoas físicas têm subido em diversas modalidades, mas em menor intensidade em comparação com o cheque especial.

Desde abril, houve um leve aumento nas taxas para financiamento de imóveis (de 9,2% ao ano, naquele mês, para 9,7%, em julho),de veículos (de 22,6% para 23,1%) e de outros bens (de 77,3% para 78,6%).

Na média, as taxas de juros para pessoas físicas atingiram 28,2% ao ano em julho, maior nível desde abril de 2012. Para emprestar a pessoas jurídicas, os bancos cobraram, em média, 16% ao ano, mesma taxa verificada em abril.

A taxa básica de juros, chamada Selic, corresponde a quanto o governo paga para os bancos quando estes compram títulos públicos em operações de curto prazo. Ela acaba sendo mais baixa do que qualquer taxa para pessoas físicas e jurídicas porque emprestar para o governo é a operação mais segura possível. Se o governo, que é historicamente um bom pagador, dá 11% ao ano, por que um banco emprestaria a um cidadão que ele nem conhece pelos mesmos 11%?

Portanto, quando a taxa básica sobe, os juros para empresas e pessoas físicas tendem a subir junto. Nos últimos quatro meses, no entanto, a taxa básica está parada em 11%, enquanto os juros cobrados pelos bancos seguem avançando.

Isso ocorre apesar de a taxa de inadimplência não ter subido. Ela ficou em 3% em julho, mesmo nível verificado em abril. A inadimplência, aliás, está no nível mais baixo desde que o BC começou a fazer esse registro pela atual metodologia, em março de 2011.

taxa de inadimplencia

Repare que neste segundo gráfico as linhas não são exatamente redondinhas, muito menos retinhas. São cheias de pequenos altos e baixos. Somente quem observa os dados em um prazo mais longo, de um ou dois anos, é que tem uma noção da tendência da inadimplência.

Vejo muita gente comentando matérias que dizem “inadimplência sobe'', “inadimplência cai'', e quando você vai ver o texto, houve uma alta ou baixa de 0,1 ponto percentual em um determinado mês e em uma modalidade específica de crédito. Esse tipo de informação diz muito pouco sobre a tendência de médio e longo prazo e às vezes gera repercussão grande demais nos debates políticos das redes sociais.

Já nesse gráfico, vemos que a inadimplência vinha subindo até o primeiro semestre de 2012 e, desde então, passou a cair. Se considerarmos os últimos meses, a partir de janeiro de 2014, vemos que a taxa parou de cair.

Ganhos dos bancos

Ao mesmo tempo em que os bancos aumentaram as taxas de juros que eles cobram, reduziram as que eles pagam.

Em média, as instituições financeiras pagaram 9,1% ao ano para pessoas físicas que aplicaram seu dinheiro em abril. Em julho, essa taxa caiu para 8,8%.

Dito de outra forma, os ganhos dos bancos ao emprestar dinheiro alheio – os chamados “spreads” bancários – continuam subindo. A diferença entre a taxa de captação (a que as instituições financeiras pagam a quem lhe empresta dinheiro) e a de aplicação (a que elas cobram quando emprestam) era de 18,6 pontos percentuais em abril e passou para 19,4 em julho, no segmento de pessoas físicas.

spread bancario


Brasileiro produz menos que argentino e russo, e mais que chinês e indiano
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Sílvio Guedes Crespo

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O brasileiro produz, em média, menos do que o argentino, o mexicano e o russo, porém mais do que o chinês, o colombiano e o indiano, de acordo com dados do Conference Board, uma organização não-governamental de pesquisas econômicas com sede em Nova York.

De 2009 a 2013, cada brasileiro ocupado produziu, em média, bens e serviços a um valor equivalente a US$ 19,6 mil por ano. No mesmo período, o mexicano produziu US$ 36,6 mil, e o argentino, US$ 32,8 mil. Já o chinês produziu US$ 17 mil ao ano, enquanto o indiano, US$ 9,9 mil.

Produtividade em países selecionados
PIB (em US$) dividido pelo número de pessoas ocupadas
PaísMédia  anual 2009-2013
Qatar152.660
EUA112.312
França86.643
Reino Unido84.923
Alemanha78.777
Japão72.745
Portugal51.170
Chile39.594
México36.556
Rússia35.612
Argentina32.753
África do Sul30.928
Brasil19.599
Colômbia19.479
China17.025
Bolívia10.286
Índia9.883
Zimbábue437

 

O estudo do Conference Board calculou dividiu o o PIB (produto interno bruto) pelo número de pessoas ocupadas, para saber quanto cada uma delas produziu, em média, por ano.

A comparação usou dólares em paridade do poder de compra, uma medida que procura neutralizar a diferença do poder aquisitivo da moeda americana em cada país.

A lista tem mais de 180 países, mas não considero recomendável fazer um ranking geral, pois pode dar margem a interpretações incorretas.

O Qatar, por exemplo, aparece como o país mais produtivo no estudo do Conference Board. Sua população ocupada produz o equivalente a US$ 153 mil por anos. Talvez a primeira impressão de quem bate o olho nesses dados seja acreditar que os trabalhadores daquele país sejam os mais eficientes do mundo.

No entanto, o que acontece é que eles têm muito petróleo e gás natural, para uma população pequena. Basta um pequeno número de pessoas para furar um poço de petróleo e obter milhões de dólares. Apesar de o governo estar focado em desenvolver outros setores da economia, o óleo ainda representa parte considerável da economia local.

Trabalho

Produzir mais não significa, necessariamente, trabalhar mais. Para saber se o brasileiro trabalha mais ou menos do que determinado povo, é preciso considerar a média de horas trabalhadas por ano – o que o Conference Board também faz.

Segundo o estudo, cada brasileiro ocupado trabalha, em média, 1.839 horas por ano – mais do que o alemão (1.392), o francês (1.477), o inglês (1.661), o americano (1.707) e o japonês (1.753). Porém, menos do que o argentino (2.430), o mexicano (2.220) e o venezuelano (1.931).


Em dez anos, custo dos empregados da indústria quase quadruplica
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Sílvio Guedes Crespo

Atualizado às 17h06*

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O custo dos empregados na indústria brasileira disparou 264% de 2002 a 2012, segundo um estudo elaborado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).

As empresas do setor gastavam, em média, US$ 3,08 por hora trabalhada com cada um dos seus funcionários em 2002, considerando o salário mais os impostos. Dez anos depois, em 2012, o valor atingiu US$ 11,20, quase quatro vezes mais.

custo do trabalho brasil historico cni

Os números se referem ao que tecnicamente se chama “custo de compensação”, um conceito que a OIT (Organização Internacional do Trabalho) utiliza como sinônimo de custo do trabalho. A CNI, no entanto, ressalta que esses dados não incluem algumas despesas também relacionadas aos empregados, como os processos de recrutamento e seleção, os programas de treinamento e também a manutenção de refeitório para os empregados.

Conforme aponta o gráfico, o custo dos empregados da indústria despencou 57% entre 1996 (dado mais antigo da série) e 2002.

A partir de 2003, o indicador passou a subir continuamente até 2008, registrando, depois, uma leve queda em 2009, que foi mais do que compensada pelos aumentos nos dois anos seguintes.

Nota-se, no entanto, que em 2012 (dado mais recente) o custo do trabalho voltou a cair.

Como os valores estão em dólares, a variação do custo do trabalho é fortemente influenciada pelo câmbio. Quando o real sobe, como no período de 2003 a 2008, o custo do trabalho também sobe. Quando a moeda brasileira cai, caso do período de 1998 a 2002, o preço da mão de obra também desce.

Porque a indústria compete globalmente – seja quando exporta, seja quando concorre com produtos importados –, o valor em dólares é o que interessa quando estudamos a competitividade do setor.

Comparando com outros países, vemos que a hora trabalhada, no Brasil, é mais cara do que a de algumas outras nações emergentes, como o México, e mais barata do que a de economias maduras, como a zona do euro.

custo do trabalho paises cni

O estudo foi elaborado pela CNI e, portanto, traz o ponto de vista dessa entidade, que representa os empresários industriais. Sendo assim, faz sentido que se fale em custo do trabalho, e não em ganho do trabalhador.

Em determinado momento da análise, os pesquisadores fazem uma observação em relação a isso, dizendo que é positivo que os salários cresçam, mas que, quando isso ocorre sem que a produtividade acompanhe no mesmo ritmo, o aumento do custo do trabalho pode até inviabilizar determinadas atividades.

Opinião

É necessário sempre levar em conta que, se de um lado temos o custo do trabalho, de outro temos o ganho do trabalhador – e mais os impostos, que podem ser revertidos em serviços para a população, desde que as pessoas se interessem por discutir questões públicas de forma racional.

O aumento do custo do trabalho de 2002 a 2012 foi fortemente influenciado pelo câmbio. A cotação do dólar, que encostou em R$ 4 em 2002, terminou o ano de 2012 a R$ 2,04.

Essa enorme valorização do real gerou um custo nada desprezível para empresas que concorrem globalmente.

Tal aumento de custo representou também uma melhora da renda dos trabalhadores, o que é desejável, especialmente em um país de enorme desigualdade social.

O caso é que, no período de 2004 a 2010, com uma interrupção em 2009 por causa da crise iniciada nos Estados Unidos, os empresários da indústria conseguiram dar aos trabalhadores aumentos acima da inflação e, mesmo assim, o setor continuou crescendo.

Naquela época, entravam muitos dólares no país, por meio de exportações crescentes para a China e por investimentos estrangeiros no Brasil. Consequentemente, o real foi se valorizando, de modo que os salários passaram a valer mais em dólares. Além disso, havia uma política econômica que deu confiança a investidores, pois as metas de inflação eram cumpridas e o governo reservava uma quantia para pagar juros que os investidores consideravam, quando não ideal, ao menos aceitável.

Quando a economia da China passou a desacelerar, é como se alguém tivesse tirado uma peça de uma máquina que até então estava funcionando. Os chineses diminuíram o ritmo de aumento das compras de produtos brasileiros. Para piorar, a Europa, um dos principais importadores das nossas mercadorias, não consegue se recuperar da crise. Os Estados Unidos ora parecem melhorar, ora dão sinais de que ainda vão mal. Adicionalmente, a Argentina, outro grande parceiro comercial do Brasil, ergueu barreiras para alguns de nossos produtos.

Internamente, em vez de arrumar a casa, criando um ambiente para tornar o país mais propício para investimentos, o governo preferiu adiar os ajustes – que certamente seriam impopulares – e fazer apenas remendos para segurar as pontas.

Por exemplo, o país precisaria cortar gastos públicos para poder pagar dívida e também para não pressionar tanto a inflação. Mas o governo preferiu não cortar gastos, provavelmente esperando que a situação internacional melhorasse e tudo voltasse a ficar mais parecido com os anos Lula. Ou então está só aguardando as eleições para tomar as medidas impopulares em 2015.

De qualquer maneira, o cenário internacional melhorou muito pouco. Como o governo não cortou gastos, a quantia que o setor público reserva para pagar juros (o chamado superavit primário) não atingiu as metas, o que gera desconfiança nos investidores.

Além disso, sem corte de gastos, a inflação está sendo segurada com decisões como a de obrigar a Petrobras a vender gasolina por um preço mais barato do que o que a empresa gasta para importar o combustível. (Essa questão é particularmente interessante, porque a Petrobras vende gasolina barata, mas os postos a vendem bem mais cara, seja por causa de impostos ou de lucro, mas esse assunto eu já discuti em outro post.) Tudo isso gera desconfiança no mercado e afugenta investidores. Não em todos os setores, mas em parte deles.

No tempo em que a economia estava crescendo bem, o período entre 2004 e 2010 (com breve interrupção em 2009 por causa da crise bancária iniciada nos EUA), a inflação era tranquilamente controlada pelo câmbio. O real foi se valorizando devido à forte entrada de dólares, e isso deixou os produtos importados mais baratos.

Agora, no entanto, se o real continuasse subindo, a indústria seria sufocada, pois os custos, quando convertidos para dólares, iriam aumentar demais e tornar as empresas menos competitivas.

A CNI propõe o corte de impostos sobre salários, como forma de se tornar um pouco mais competitiva. Isso é positivo, mas devemos lembrar que toda redução impostos deve ser acompanhada de diminuição de despesas, ou seja, de medidas impopulares. A questão é de onde o governo tiraria dinheiro para pagar as aposentadorias, se a contribuição previdenciária que a indústria paga for cortada.

Se o preço das horas pagas cresce mais do que a produtividade, teríamos duas opções: reduzir o preço da hora ou aumentar a produtividade. O gráfico mostrado no estudo da própria CNI diz que na zona do euro o custo do trabalhador é mais do que o triplo daquele que existe no Brasil. Mesmo assim, a Europa é sede de inúmeras indústrias de ponta, dos aviões Airbus aos veículos BMW, passando por gigantes do petróleo como a Total e a BP, farmacêuticas como a Roche e muitas outras.

Verdade que muito do que essas companhias produzem está em países emergentes, mas uma parte ainda está no país sede, mesmo com trabalhadores ganhando bem mais do que os daqui. Sinal de que o foco das políticas para o setor tem que estar no aumento da produtividade, não na redução dos salários.

* Acrescentado o item 'Opinião' às 17h06


Há 20 anos, arroz custava R$ 0,64, e carro popular, R$ 7.200; relembre
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Sílvio Guedes Crespo

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O real completou no mês passado 20 anos em circulação. Em 1º de julho de 1994, quando a moeda foi lançada, o litro da gasolina custava R$ 0,55, e a passagem de ônibus em São Paulo, R$ 0,50.

Isso não quer dizer necessariamente que o brasileiro tenha perdido poder de compra. Ao contrário, muitos ganharam. O salário mínimo era de R$ 64,79 em julho de 1994 e atualmente é de R$ 724, ou seja, aumentou 1.017%. Já os preços ao consumidor subiram, em média, 362% no período, segundo o índice oficial de inflação (para quem não acredita no índice de inflação, recomendo ler isto antes de comentar: http://uol.com/bmdMrd).

Relembre o preço de 14 produtos em 1994.

1. Arroz: R$ 0,64 o quilo

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O quilo de arroz custava R$ 0,64 em julho de 1994, em São Paulo, segundo o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos). Já o feijão saía por R$ 1,11. Hoje, os produtos custam R$ 2,57 e R$ 3,81, respectivamente. Há 20 anos, o salário mínimo comprava 37 quilos de arroz e feijão; hoje, compra 113 quilos de cada.

2. Pão francês: R$ 0,09

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O pão francês saía, em média, por nove centavos cada unidade quando o real começou a circular, também de acordo com dados do Dieese. Hoje o produto é vendido por peso, e o quilo está cerca de R$ 9,66 em São Paulo. Considerando que uma unidade pese 50 gramas, o pão francês está em torno de R$ 0,50. O salário mínimo comprava 758 pães em 1994, e hoje compra 1.499.

3. Filé mignon: R$ 6,80 o quilo

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O preço do filé mignon subiu 438% desde julho de 1994, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Em uma busca em sites de supermercados, este blog encontrou filé fresco a R$ 28,90 (o mais barato) e a R$ 44,51 o quilo (o mais caro encontrado). Tirando a média e descontando a inflação, pode-se estimar que, em 1994 esse corte custava em torno de R$ 6,80 o quilo. O salário mínimo comprava, portanto, nove quilos de filé mignon; hoje, compra 20.

4. Gol 1.0: R$ 7.243

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Na foto, da esquerda para a direita, o modelo 1994 dos veículos: Escort Hobby 1.0 (R$ 7.386 à época), o Gol 1.000 (R$ 7.243), o Uno Mille (R$ 7.254) e o Corsa Wind 1.0 (R$ 7.350). Eles eram os carros mais baratos da Ford, Volkswagen, Fiat e Chevrolet. Na média, esses quatro veículos custavam R$ 7.308, ou 113 salários mínimos, em 1994. Atualmente, a versão mais simples dos modelos mais baratos de cada uma dessas montadoras custa, em média, R$ 30.444, ou 42 salários mínimos.

5. Uísque Jack Daniel’s: R$ 33,50

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As lojas Depósito Normal, em São Paulo,  anunciavam o Jack Daniel’s Tenessee Whiskey por R$ 33,50 há 20 anos. No site do supermercado Extra, o produto aparece hoje por R$ 99,65. O salário mínimo quase comprava duas garrafas no início do real e hoje compra sete.

6. Cinema: R$ 5

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O ingresso para o filme “Um tira da pesada 3”, com Eddie Murphy, custava R$ 5 no Shopping Iguatemi, em São Paulo, em um domingo à noite em 1994. Um salário mínimo comprava quase 12 ingressos. Hoje, no mesmo shopping e no mesmo horário, pode-se assistir a “Planeta dos macacos – o confronto”, por R$ 29 a entrada inteira. O atual salário mínimo adquire perto de 25 ingressos.

7. Show do Chitãozinho e Xororó: R$ 15

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Chitãozinho e Xororó, em agosto de 1994, fizeram um show no Palace, onde tocaram “Evidências” e “Fio de cabelo”. O ingresso mais barato saiu por R$ 15, e o mais caro, por R$ 35. O salário mínimo dava para quatro pessoas na pista ou uma no camarote. A comparação de preço de shows é sempre imprecisa, pois, com o tempo, alguns artistas passam a valer mais, e outros, menos. Mas não custa informar que, em 9 de agosto deste ano, a dupla se apresentou no Espaço das Américas, na Barra Funda, e o ingresso custou de R$ 75 a R$ 180. O salário mínimo atual compra nove entradas para o setor mais barato e quatro para o mais caro.

8. Ônibus: R$ 0,29 a R$ 0,54

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Teresina e João Pessoa tinham o passe de ônibus mais barato entre as capitais do país em julho de 1994: R$ 0,29. A passagem mais barata era em Brasília, R$ 0,54. O salário mínimo comprava 129 passes em São Paulo e hoje, a R$ 3, compra 241.

9. Gasolina: R$ 0,55 o litro

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O litro da gasolina estava R$ 0,55, em média, nos postos de São Paulo no dia 18 de julho de 1994, segundo uma reportagem da Folha à época. O álcool saía por R$ 0,44. Hoje, a gasolina está R$ 2,815, e o etanol, R$ 1,839. O salário mínimo, portanto, comprava 117 litros de gasolina e hoje compra 257.

10. Rodízio: R$ 13 a R$ 24

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Uma refeição na churrascaria Fogo de Chão, em São Paulo, saía entre R$ 13 e R$ 24 por pessoa em 1994, segundo a Revista da Folha. O salário mínimo bancava, então, entre duas e cinco pessoas. Já no Almanara, gastava-se até R$ 12 por pessoa, e no Bargaço, de R$ 25 a R$ 35. Hoje, o rodízio na Fogo de Chão está R$ 112 por pessoa. O atual salário mínimo paga refeição para até seis pessoas na churrascaria.

11. Apartamento de três dormitórios: R$ 94.340

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A imagem acima é da planta de um apartamento que estava sendo anunciado por R$ 94.340, no dia 7 de agosto de 1994, o que dava 1.456 salários mínimos na época. O imóvel ficava no primeiro andar de um edifício no bairro do Morumbi, em São Paulo. Quem fechasse o negócio ganharia uma viagem para Nova York. A área somava 211 metros quadrados. O apartamento tinha três dormitórios (sendo uma suíte), varanda com churrasqueira e duas vagas na garagem. Hoje, fazendo uma busca no site Zap por apartamentos de três quartos (sendo uma suíte), com cerca de 200 metros quadrados de área, duas vagas, no mesmo bairro, surgiram 17 unidades cujos proprietários pedem entre R$ 600 mil e R$ 800 mil, o que dá algo entre 800 e 1.100 salários mínimos. Mas não é possível dizer se aumentou ou não poder de compra do salário mínimo em relação a imóveis apenas com esses dados, pois cada apartamento traz características muito peculiares, como a localização exata, a vista, as instalações do prédio, o andar etc.

12. Óculos Ambervision: R$ 39,95

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Os óculos Ambervision, produto que “bloqueia até 100% dos raios ultravioleta” e tem um “design avançado unissex”, custavam URV 39,95. Para quem nasceu depois, a URV, Unidade Real do Valor, era uma moeda imaterial que serviu para as pessoas irem se acostumando com o real antes de este ser lançado. As pessoas recebiam e pagavam em cruzeiros reais, mas o comércio informava também qual era o preço em URV, unidade que depois daria lugar ao real. Em tese, tudo o que custava URV 1 em 30 de junho de 1994 deveria passar a custar R$ 1 a partir de 1º de julho. Mas vários comerciantes aumentaram os preços na virada do mês. Caso o Grupo Imagem Teleshop, responsável pelo Ambervision, não tenha sido um deles, o salário mínimo comprava apenas um óculos. Mas se ligasse “agora mesmo”, pagaria um e levaria dois. O Ambervision não existe mais.

13. Tele-Amizade: R$ 3,49 por minuto

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Em 1994, quem quisesse conhecer pessoas poderia ligar para o Tele-Amizade, pagando R$ 3,49 por minuto (interurbano grátis). Com um salário mínimo, era possível falar durante 18 minutos. Hoje, as pessoas fazem amigos e marcam encontros pela internet, pagando um preço fixo pelo acesso, independentemente do tempo gasto.

14. Dólar: R$ 1,00

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O dólar era vendido a R$ 1,00 em 1º de julho de 1994, pela Ptax, uma forma de calcular a cotação, elaborada pelo Banco Central. Exatos 20 anos depois, a moeda americana saía por R$ 2,2054. No início do real, o salário mínimo valia US$ 64,79. Hoje, está em US$ 328,29. Aqui, cabe uma observação: o dólar também perde poder de compra com o tempo. Portanto, US$ 64,79 há 20 anos valiam mais do que os mesmos US$ 64,79 hoje. Em outra ocasião, calculei o ganho do salário mínimo do Brasil convertido para dólares e descontando a inflação dos Estados Unidos (http://uol.com/bhdRqR).


Bovespa tem 3ª maior alta, entre 50 países, após queda na aprovação a Dilma
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Sílvio Guedes Crespo

Atualizado às 15h37*

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O principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo, o Ibovespa, subiu 18% desde o dia 26 de março, véspera da publicação da primeira pesquisa CNI/Ibope que registrou a primeira queda da aprovação ao governo Dilma Rousseff neste ano, até o fechamento de 6 de agosto.

A alta é a terceira mais forte de um ranking de 50 países analisados pelo blog Achados Econômicos. À frente da Bolsa brasileira ficaram a da Argentina, que subiu 33% no mesmo período, e a do Peru, com aumento de 20%.

bolsas no mundo

O ranking abrange um total de 53 índices de ações, porque inclui três dos Estados Unidos e um que reúne empresas de diversos países da Europa (veja lista completa ao final deste post).

Nas três últimas posições ficaram as Bolsas da Venezuela (-13%), Grécia (-18% cada) e Portugal (-26%). Os dois países europeus estão entre os que mais preocupam investidores por conta da dívida pública. A Grécia chegou a dar o maior calote da história, em 2012, quando investidores privados que tinham títulos emitidos por aquele país aceitaram uma perda de 53,5% (cerca de € 107 bilhões) no valor dos seus papéis. 

Portugal não chegou a dar calote, mas, como a Grécia e a Irlanda, pediu ajuda ao Comissão Europeia, ao Banco Central Europeu e ao Fundo Monetário Internacional, em 2011. Mais tarde, em 2014, Portugal e Irlanda conseguiram se livrar do programa de resgate.

Já no caso da Venezuela, a Bolsa caiu após um período de forte alta. Em 2013, o principal índice de ações do país subiu 502%. Segundo analistas, existia a expectativa de mudanças na política venezuelana rumo a uma abordagem mais amigável ao mercado.

Considerando o acumulado do ano, o Ibovespa teve alta de 10% até 6 de agosto, ficando em 15º lugar na mesma lista de países.

O levantamento foi feito a partir de dados do site Yahoo! Finance e da agencia Bloomberg.

Entrevista

O analista Lucas Marins, da corretora Ativa, concedeu a entrevista abaixo ao blog Achados Econômicos.

O que explica a alta de 18% do Ibovespa no período analisado? É só essa questão das pesquisas eleitorais ou existem outros fatores?

É essa questão da pesquisa, mesmo. Se quiser procurar outro fator para explicar isso, não vai achar. A cada semana, a gente vê a pesquisa Focus [que reúne previsões econômicas feitas por cerca de 100 instituições financeiras] reduzindo sua projeção de crescimento do PIB [produto interno bruto]. A projeção para a inflação está em 6,26%, quase no teto da meta [que é de 6,5%]. Enfim, não tem nenhum fundamento econômico que possa motivar essa alta do Ibovespa, nem os resultados das empresas.

Caso a presidente Dilma vença ou volte a subir nas pesquisas, o que tende a acontecer com a Bolsa?

Se Dilma vier a vencer, grande parte dessa alta [do Ibovespa] deve se perder, a não ser que ela anuncie alguma mudança na política econômica, como fez o Lula em 2002, quando lançou a Carta ao Povo Brasileiro.

Ranking

Abaixo, o ranking completo com os 53 índices analisados.

PaísVariação desde 26/3Var. acum. em 2014
Argentina33%51%
Peru20%7%
Brasil18%10%
Turquia17%17%
Índia16%21%
Hong Kong12%5%
Tailândia12%17%
México12%4%
Romênia10%7%
EUA – Nasdaq8%8%
Noruega8%12%
África do Sul7%10%
Indonésia7%18%
Chile6%6%
China6%3%
Cingapura6%5%
Coeria do Sul5%2%
Japão5%-7%
Taiwan5%6%
Canadá5%12%
Dinamarca5%15%
EUA – S&P 5004%4%
Croácia3%1%
Hungria2%-7%
Austrália2%3%
Malásia2%0%
Finlândia2%1%
Emirados Árabes1%15%
EUA – DJ1%-1%
Espanha1%3%
Reino Unido0%-2%
Holanda0%-1%
Suécia0%3%
Luxemburgo0%4%
Colômbia0%-3%
Suíça-1%1%
Nova Zelândia-1%7%
Israel-1%5%
Rússia-1%-11%
Bélgica-1%5%
Marrocos-2%4%
Polônia-2%-1%
Europa-3%-2%
Alemanha-3%-4%
França-4%-2%
República Tcheca-5%-4%
Itália-8%3%
Irlanda-9%1%
Áustria-10%-12%
Bulgária-10%10%
Venezuela-13%-20%
Grécia-18%-6%
Portugal-26%-15%

 

* Acrescentada a entrevista às 15h37


Por que os bancos se calariam diante de reclamações do governo?
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Sílvio Guedes Crespo

Atualizado às 19h40*

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Poucas empresas estão se saindo tão bem no Brasil atual quanto os grandes bancos. As 1.555 instituições que compõem o sistema financeiro nacional lucraram R$ 37,2 bilhões no primeiro trimestre deste ano. Desse valor, R$ 7,8 bilhões, ou 44%, correspondem aos ganhos dos três maiores conglomerados financeiros privados. O Itaú teve lucro de R$ 3,8 bilhões; o Bradesco, de R$ 3,5 bilhões, e o Santander, de R$ 553 milhões. Nada mal para uma época de crescimento econômico baixo e inflação alta no país.

Neste momento em que os bancos que operam no país gozam a maior opulência de sua história e o restante da economia lamenta um crescimento do PIB (produto interno bruto) que deve ficar em torno de 1% neste ano, há quem acredite que o sistema financeiro seja vítima de uma “postura bolivariana” do governo.

A polêmica começou depois de uma reação efusiva de petistas a um acontecimento não muito mais do que banal. Uma analista do Santander, que, segundo o banco, não tinha autorização para fazer publicamente associações entre política e preço das ações, escreveu que, se a presidente Dilma Rousseff “subir nas pesquisas [...] o índice da Bovespa cairia”. Tal opinião, que já circulava há meses no mercado e na imprensa, foi enviada junto com o extrato bancário a 1,7% dos clientes do Santander – aqueles com renda mensal acima de R$ 10 mil ou aplicações superiores a R$ 100 mil.

Em resposta, Dilma disse que aquela atitude era “inadmissível”. O presidente do PT, Rui Falcão, acusou o banco de fazer “terrorismo eleitoral”, e o prefeito de Osasco, o também petista Jorge Lapas, anunciou que iria rescindir um convênio entre o município e o Santander para pagamento de tributos. O banco publicou em seu site um pedido de desculpas e demitiu a analista.

Foram precisamente o pedido de desculpas e a demissão que provocaram medo em parte dos profissionais do mercado. Alguns falaram abertamente com a imprensa sobre o assunto, mas outros só aceitaram dar entrevistas se não tivessem seus nomes revelados. Os do último grupo diziam temer represálias do governo caso se expusessem.

Mais recentemente, a agência Bloomberg noticiou que “o pedido de desculpas por parte do Santander [...] desencadeou medidas em pelo menos dois dos maiores bancos do país sobre o que seus analistas podem e não podem dizer”. Anteontem, o ex-ministro Antonio Delfim Netto afirmou, em entrevista à Band, que, depois da politização do caso pelo governo e da demissão da analista pelo Santander, “ninguém mais vai acreditar em qualquer informe de banco sobre a economia brasileira”.

Que o governo teve uma reação descabida e que parte dos profissionais do mercado ficou morrendo de medo, já se falou amplamente na imprensa. O que ainda ficou faltando explicar é: por que os grandes bancos se calariam diante de uma reclamação do governo?

Quando este blog entrevistou profissionais do mercado que disseram estar com medo e não quiseram se identificar, perguntou quais seriam os meios de o governo pressionar os bancos. Duas hipóteses foram levantadas pelos entrevistados.

Uma foi a de que órgãos como a Receita Federal, o Banco Central e a Comissão de Valores Mobiliários poderiam perseguir as instituições que criticassem o governo, intensificando a fiscalização sobre elas (as três negam). A outra hipótese foi a de que os grandes bancos fazem muitas operações com o setor público e não querem correr o risco de perder negócios.

Ora, se essas duas hipóteses estiverem certas, então não teríamos um Estado oprimindo o setor financeiro, e sim um acordo tácito entre as duas partes. As pessoas que disseram ter medo, no entanto, não levantaram outra suposição sobre a forma com que o governo pudesse retaliar o mercado. De qualquer modo, a exposição negativa da marca Santander na imprensa e nas redes sociais, após o episódio, já é um motivo nada desprezível para uma empresa desse porte querer ficar quieta.

Nenhum dos grandes bancos fala sobre o assunto abertamente. Mas um executivo de uma das maiores instituições financeiras do país aceitou falar com o blog desde que não tivesse seu nome divulgado.

Ele defendeu seus pares e mostrou-se predominantemente satisfeito com a forma como o Estado e o setor bancário se relacionam no Brasil.

“É óbvio que ninguém gostaria de ter uma relação difícil com o governo”, disse, “[mas] eu jamais vi alguma ação do governo que seja de retaliação, inclusive porque não tem instrumentos legais para fazer”.

No meio de toda a confusão, quem realmente saiu ganhando foi a Empiricus Research, uma consultoria que compara o PT com o antigo Partido Nacional-Socialista da Alemanha e havia publicado, antes do episódio do Santander, um anúncio que dizia: “Saiba como proteger seu patrimônio no caso de reeleição de Dilma”. O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) obrigou a empresa a retirar do ar a publicidade, a pedido da campanha de Dilma, que alegava ser um anúncio com finalidade eleitoral.

A proibição, por si só, fez a consultoria ser citada em diversas reportagens em jornais e na internet. Com o episódio do Santander, a Empiricus rapidamente se pronunciou dizendo que tinha “simpatia” pela profissional do banco que foi demitida, declaração que ajudou a empresa a continuar aparecendo nas reportagens e ainda reforçou na consultoria uma imagem de lutadora contra eventuais tentativas de oprimir o mercado. A Empiricus disse ter dobrado o número de clientes e já está famosa no seu nicho de mercado, que inclui, certamente, as pessoas que temem uma revolução ao estilo “bolivariano'' no país.

* As informações sobre lucro dos bancos, que até as 19h40 se referiam a 2013, foram atualizadas para o primeiro trimestre de 2014.


Bancos aumentam juros mesmo após BC parar de elevar a taxa
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Sílvio Guedes Crespo

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Os bancos continuaram elevando as taxas de juros às pessoas físicas em diversas modalidades, apesar de a taxa básica, a Selic, estar parada no patamar de 11% ao ano desde o dia 3 de abril.

Naquele mês, o cheque especial custava, em média, 161,8% ao ano. Em maio, esse tipo de empréstimo subiu para 168,5% ao ano. Em junho, atingiu 171,5%.

juros cheque especial

O crédito pessoal não consignado passou por um movimento um pouco diferente. Depois que a taxa básica (Selic) atingiu 11%, o juro nessa modalidade caiu (de 99,2% ao ano, em abril, para 97,5%, em maio) e depois subiu em junho, para 100,3% ao ano.

No caso do crédito consignado, aquele em que o tomador paga por meio de um desconto automático em seu salário, houve um pequeno aumento, passando de 25,3% para 25,6%.

Para comprar de veículos, as taxas de juros tiveram uma pequena alta, de 22,6% em abril para 23% em maio e junho. Já para aquisição de outros bens houve um aumento de abril para maio (77,3% para 28,2%) e depois uma ligeira queda, para 77,8% em junho.

No caso do financiamento imobiliário, os bancos cobravam 9,2% em abril, passaram para 9,5% em maio e agora voltaram aos 9,2% em junho.

Todas essas taxas são médias, ou seja, cada tomador pode ter obtido um custo maior ou menor, dependendo da disposição da instituição financeira em emprestar e do relacionamento que cada cliente tem com o banco.

Entrevista

O economista Pedro Raffy Vartanian, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie, concedeu a entrevista abaixo ao blog.

É normal que os bancos continuem elevando as taxas de juros, mesmo depois de o Banco Central decidir interromper o ciclo de alta?

Não vou dizer que isso é comum, mas, dado o contexto econômico atual, é compreensível.  A taxa básica de juros [Selic] é o principal determinante desse tipo de operação [empréstimo bancário]. Mas tem outras variáveis que também influenciam, como o baixo crescimento econômico e a inflação alta, que podem gerar problemas de emprego e renda – e, consequentemente, maior inadimplência.

É um cenário que leva os ofertantes de crédito a serem mais restritivos. Eles acabam optando ou por emprestar menos ou emprestar com uma taxa maior.

Mas a taxa de inadimplência continua controlada.

Sim, a inadimplência por enquanto está controlada. O que faz com que os bancos emprestem menos é o receio de aumento da inadimplência. É uma postura preventiva.

O baixo nível de atividade industrial, o baixo crescimento econômico, a incerteza em relação ao mercado de trabalho, a desaceleração da geração de empregos, os números ruins da indústria automobilística e a própria política monetária atual, que é contracionista, tudo isso combinado, gera receio de que aumente a inadimplência.

Como a economia tem alguns preços represados, isso poderá contaminar a inflação de 2014 – portanto, existe ainda uma possibilidade de aumento da taxa Selic. Isso tudo pode afetar a inadimplência. Não estou dizendo que a inadimplência esteja descontrolada ou que ela vá aumentar. Mas o receio de que isso ocorra já é suficiente para restringir a concessão de crédito.

O BC anunciou na sexta-feira a liberação de R$ 45 bilhões para os bancos emprestarem. Esse é um dinheiro que os bancos captaram e ficava parado em uma conta no BC (o chamado depósito compulsório). Com esse volume entrando no mercado, os empréstimos tendem a aumentar, e as taxas de juros, a cair?

O objetivo é esse, mas não necessariamente vai acontecer. Os bancos estão num cenário de concessão criteriosa e rigorosa de crédito por aqueles motivos que eu citei. O banco só vai emprestar a uma taxa menor para quem ele realmente tem certeza de que não vai ser inadimplente. Dessa forma, o impacto dessa medida no custo do cheque especial e do cartão não vai ser notado pelo tomador.

Nós estamos num cenário não tão grave, mas parecido com aquele após a crise de 2008, em que o governo incentivou os bancos a emprestarem, mas os bacos, preventivamente , preferiram não emprestar. Preferiram aplicar em títulos públicos.


Com Copa, gastos de estrangeiros somam US$ 797 mi em junho e batem recorde
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Sílvio Guedes Crespo

Atualizado às 14h09*

Fifa Fan Fest em São Paulo

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Os gastos de estrangeiros no Brasil somaram US$ 797 milhões em junho, mês em que se iniciou a Copa do Mundo no país.

Em dólares correntes (sem atualizar pela inflação da economia americana), esse é o maior valor, para um único mês, de toda a série histórica que o Banco Central coloca à disposição no site, iniciada em 1969. É o maior também se comparado com uma série anterior, de 1947 a 1968, que foi desativada.

Até então, o recorde era de janeiro de 2013 (US$ 696 milhões).

O valor do mês passado ficou bem acima do que costuma entrar no países nessa época do ano. Na média dos meses de junho de 2009 a 2013, os gastos de estrangeiros ficaram em  US$ 437 milhões. Em junho de 2013, foram US$ 453 milhões. O impacto da Copa no turismo no mês passado ficou, portanto, na faixa dos US$ 350 milhões.

Os números fazem parte do balanço de pagamentos, que é o registro de todo o dinheiro que entra e sai do país, divulgado pelo BC.

historico gastos estrangeiros brasil junho

Ao analisar a evolução dos gastos de turistas, é sempre bom comparar com a mesma época do ano, uma vez que esse mercado tem uma variação sazonal muito grande. Por isso, o gráfico acima informação apenas os dados de junho de cada ano.

Mas não deixa de ser curioso reparar que em um mês de junho, as despesas dos estrangeiros no Brasil superaram o recorde dos meses de janeiro, época de alta temporada, em que o país registra as maiores entradas de dólares via turismo.

Nas últimas semanas, foram divulgadas diversas pesquisas sobre as despesas de turistas no país durante a Copa. Tais dados se diferem destes apresentados pelo Banco Central. Algumas dessas pesquisas eram apenas estimativas e outras se limitavam à receita de determinadas empresas de cartão de crédito. Já os dados do BC são o registro efetivo das despesas de todos os que entram no país e gastam legalmente.

Outra diferença está no fato de que o número do BC se refere a junho, enquanto outras pesquisas abrangem todo o período da Copa (12 de junho a 13 de julho). Além disso, algumas das pesquisas recentes somam os gastos de estrangeiros com o de turistas brasileiros, ao passo que o dado do BC só se refere aos não residentes no país.

Brasileiros no exterior

Apesar do resultado excepcional, as despesas dos não residentes no país não fizeram nem cócegas no deficit da conta de viagens.

É que, no total, os estrangeiros gastam muito menos quando vêm para cá do que os brasileiros quando saem do país. Enquanto os primeiros trouxeram aqueles US$ 797 milhões para o Brasil em junho, os brasileiros deixaram US$ 2 bilhões em outros países. Isso resultou em um saldo negativo de US$ 1,2 bilhão na conta de viagens.

No primeiro semestre, o deficit dessa conta ficou em US$ 8,8 bilhões, maior do que os US$ 8,7 bilhões registrados no mesmo período do ano passado, quando não houve Copa do Mundo.

gastos viagens brasileiros estrangeiros historico

* Acrescentados o segundo gráfico às 11h25 e mais informações às 14h10