Achados Econômicos

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Sílvio Guedes Crespo

Caro leitor,

Estou em férias até o dia 4 de maio. Na semana do dia 5, voltarei a atualizar o blog regularmente.

Abraços,

Sílvio


Bolsa brasileira tem 4ª maior alta do mundo após queda de Dilma em pesquisa
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Sílvio Guedes Crespo

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O Índice Bovespa, que reúne as principais ações da Bolsa de Valores de São Paulo, avançou 4,8% desde o fechamento do dia 26, véspera da divulgação de uma pesquisa que mostrou queda na aprovação à presidente Dilma Rousseff, até o final do pregão de ontem (1º).

No mesmo período, apenas três países, de 85 pesquisados pelo blog Achados Econômicos, tiveram uma alta mais acentuada: Ucrânia (6,5%), Qatar (5,1%) e Argentina (5%).

Os preços das ações são influenciados por inúmeros fatores, sendo muitas vezes difícil precisar o motivo da variação da Bolsa em determinados períodos, especialmente em prazos curtos.

No momento atual, no entanto, há indícios claros de que o fator político tenha sido significativo na alta recente das ações. A comparação internacional é um dos itens que reforçam essa tese.

A variação do Ibovespa desde a divulgação da pesquisa superou fortemente a das Bolsas de países ricos. O índice Dow Jones, dos Estados Unidos, subiu apenas 1,6% no período. O mercado acionário também teve alta modesta no Japão (2,2%), na Alemanha (1,6%), no Reino Unido (0,7%) e na França (0,9%).

Com exceção da Argentina, os países emergentes também não tiveram uma alta comparável à brasileira. A variação foi mais fraca na China (-0,8%), na Índia (1,6%), no Chile (2,6%) e no México (1,8%). Vale lembrar que a Bolsa brasileira, no ano passado, foi uma das que mais caíram no mundo.

Ainda, dessa alta de 4,8% no Ibovespa, a maior parte ocorreu no dia da divulgação da pesquisa, quando o índice avançou 3,5%.

Outro sinal da influência do fator político na variação da Bolsa está no fato de as empresas estatais terem registrado altas significativas naquele dia, com destaque para Petrobras (PETR4, com alta de 8,13%), Eletrobrás (ELET3, 9,84%) e Banco do Brasil (BBAS3, 6,63%).

O governo tem tomado decisões que afetam negativamente o preço de ações de estatais. A Petrobras é o caso mais evidente porque é a empresa com maior peso no Ibovespa.

A companhia tem importado gasolina por um preço alto e vende nas refinarias por um valor mais baixo, para tentar controlar a inflação.

A maior parte dos analistas argumenta que, em vez de fazer isso, a estatal deveria trabalhar com preços de mercado, mesmo que isso encarecesse a gasolina. Dessa forma, a companhia poderia gerar mais caixa e, consequentemente, mais dividendos para seus acionistas (inclusive para o governo). A inflação, na opinião de muitos analistas, deve ser combatida por meio de outros instrumentos, como a taxa básica de juros e a contenção de gastos públicos.

Além disso, diversos analistas têm criticado a política econômica de modo geral. Eles esperam que o governo seja mais rígido na política fiscal, ou seja, querem que o setor público economize mais dinheiro para pagar juros – preferencialmente, por meio de corte de gastos, não aumento de impostos. Também defendem que a inflação seja levada ao centro da meta e que o governo deixe as estatais operarem de acordo com critérios de mercado.

Todas essas medidas que muitos economistas têm defendido trarão um impacto social negativo no curto prazo. Aumento do preço da gasolina gera inflação. Contra isso, os juros deveriam subir mais, inibindo investimentos. Cortes de gastos públicos podem desaquecer a economia.

O argumento dos que defendem essas medidas é o de que tais ajustes criariam um ambiente um pouco mais previsível para os investidores, que ficariam mais confiantes e voltariam a colocar dinheiro no país futuramente. Já o governo parece querer adiar esses ajustes para evitar os custos sociais em um ano eleitoral.


População ocupada para de crescer em fevereiro pela 1ª vez desde 2004
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Sílvio Guedes Crespo

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O número de pessoas com ocupação remunerada parou de crescer. Esse contingente ficou estável no mês passado, em relação a período equivalente de 2013. É a primeira vez, desde pelo menos 2004, que o número de ocupados não cresce em meses de fevereiro – sempre em comparação com o mesmo mês do ano anterior.

populacao ocupada em meses de fevereiro

Os números são da Pesquisa Mensal de Emprego, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Eles são relativamente baixos em comparação com o tamanho da população brasileira porque não abrangem todo o território nacional, mas apenas seis regiões metropolitanas.

Esta série histórica do IBGE começou em março de 2002, portanto, o primeiro dado para fevereiro é de 2003, e a primeira variação anual possível de ser calculada é a de 2004.

O gráfico abaixo talvez mostre mais claramente que houve, no último ano, uma interrupção abrupta da trajetória de aumento da ocupação. Ele apresenta não a quantidade total de ocupados, mas a variação, em milhares de pessoas, em relação a um ano antes.

variacao da populacao ocupada em meses de fevereiro

O curioso é que essa interrupção não impediu que o desemprego atingisse 5,1% da população ativa, a menor taxa para meses de fevereiro desde que o IBGE adotou a atual metodologia, em março de 2002.

A queda do desemprego ocorreu, portanto, não porque aumentou o contingente de ocupados, e sim porque baixou o de desocupados, passando de 1,36 milhão em fevereiro de 2013 para 1,24 milhão no mês passado.

Só existem três formas de a população desempregada cair: ou essas pessoas morrem, ou conseguem trabalho, ou, ainda, decidem que não vão mais procurar emprego.

Não há indício de que elas morreram, pois a população com idade para trabalhar (maiores de 10 anos, no conceito dessa pesquisa) continua crescendo. Tampouco há sinal de que elas arrumaram emprego, pois, como mostram os dois gráficos, a população ocupada parou de crescer.

Logo, no caso do Brasil atual, o que está ocorrendo é a última hipótese: desempregados deixam de procurar trabalho e o contingente de inativos sobe. (Vale dizer que não são necessariamente as mesmas pessoas. Por exemplo, alguém que estava desocupado pode conseguir um emprego, enquanto outro que estava trabalhando se aposenta e, portanto, sai do mercado de trabalho. Nas estatísticas, no entanto, o resultado é o mesmo: queda do número de desempregados e aumento do de inativos.)

Poderíamos supor que essas pessoas deixaram de procurar emprego por desalento, isto é, por perderem a esperança. Mas uma das perguntas que os pesquisadores fazem aos que não estão trabalhando é se eles gostariam de arrumar uma ocupação. Em fevereiro deste ano, 17,1 milhões de pessoas disseram “não”, 900 mil a mais do que há um ano.

Os números indicam que a decisão voluntária de muitas pessoas de não trabalhar é, neste momento, o que está mantendo o desemprego baixo. Para explicar o porquê dessa decisão, há muitas hipóteses.

Por exemplo, aumento do número de aposentados, queda da quantidade de aposentados que trabalham para complementar a renda (lembrando que muitos deles recebem o salário mínimo, que tem subido acima dos índices oficias e privados de inflação), aumento do contingente de estudantes que resolvem adiar sua entrada no mercado, crescimento relativo da população de mulheres solteiras que não têm onde deixar o filho pequeno enquanto trabalha etc. Essas e outras hipóteses foram discutidas em um post anterior.


Diferença de importação e exportação da indústria sobe 11 vezes em 6 anos
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Sílvio Guedes Crespo

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A diferença entre as importações e as exportações da indústria manufatureira aumentou 11,4 vezes nos últimos seis anos, de acordo com dados da Funcex (Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior) compilados pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).

As importações saltaram de US$ 93,2 bilhões, em 2007, para US$ 198,1 bilhões, no ano passado. No mesmo período, as exportações subiram bem menos, de 83,9 bilhões para US$ 93,1 bilhões. Resultado: o deficit dessa indústria passou de US$ 9,2 bilhões para US$ 105 bilhões naquele intervalo.

grafico exportacoes importacoes manufaturas

A Funcex classifica os produtos exportados de acordo com o seu grau de elaboração. Por exemplo, minério de ferro, laranja, soja e cana de açúcar são considerados básicos. Ferro fundido, suco de laranja, açúcar e óleo de soja, que já são um pouco mais trabalhados, são chamados de semimanufaturados. Já os bens manufaturados são aqueles que passaram por maiores transformações, como automóveis, produtos químicos, têxteis, televisores, chips de computador etc.

Juntos, os produtos básicos, semimanufaturados e manufaturados tiveram não um deficit no ano passado, mas um superavit de US$ 2,6 bilhões. Isso quer dizer que o dinheiro que entra no país por meio da exportação de produtos menos trabalhados compensa, com uma pequena folga, a quantia que sai com a importação de manufaturados.

O problema é que esse saldo positivo do comércio exterior diminuiu rapidamente nos últimos anos. Em 2011, chegou a US$ 29,8 bilhões; no ano seguinte, caiu a US$ 19,4 bilhões; em 2013, como dito acima, não chegou a US$ 3 bilhões.

Entrevista

A respeito do assunto, o professor Otto Nogami, do Insper, concedeu a entrevista abaixo ao blog Achados Econômicos.

Pergunta: Porque o déficit da indústria manufatureira está aumentando com essa intensidade?

Resposta: A falta de investimento no setor produtivo fez com que a oferta não atendesse a demanda. Primeiro, temos o velho problema dos juros altos. Muitas vezes vale mais a pena aplicar em renda fixa do que investir em produção. Em segundo lugar, temos o problema da infraestrutura, que não acompanhou as necessidades da economia. Em terceiro, a deterioração de indicadores econômicos como inflação, taxa de juros e taxa de câmbio leva o investidor estrangeiro a começar a sair do país. Gradativamente, ele volta para os Estados Unidos e a Europa, que estão se recuperando.

A recente alta do dólar tende a tornar os produtos brasileiros mais baratos do que hoje, em comparação com os estrangeiros. Isso muda a tendência de aumento do déficit das manufaturas?

Não. Tanto que, de 2010 a 2013, o dólar subiu de R$ 1,62 para R$ 2,32 e o volume de exportações não aumentou; ficou estabilizado. Hoje, ainda temos o agravante de que um importador significativo dos produtos brasileiros, a Argentina, está colocando barreiras comerciais.

O que o governo pode fazer para mudar essa tendência?

Pode incentivar investimentos no setor produtivo e em pesquisa e desenvolvimento, direcionando a política de empréstimos subsidiados para as micro e pequenas empresas, que mantêm a atividade econômica, pode realizar os investimentos necessários em infraestrutura e pode definir uma política industrial bem clara, para os empresários saberem onde o governo quer chegar.

Também é necessário melhorar a qualificação da mão de obra e dar segurança no fornecimento de energia. O governo precisa evitar controlar preço. Ele mantém a gasolina a um preço artificialmente barato, mas uma hora isso vai ter que se ajustar. Então o empresários ficam tentando adivinhar quando que essas coisas vão estourar.


HSBC e Bradesco são campeões em juros altos; veja ranking
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Sílvio Guedes Crespo

imagem think stock

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O HSBC e o Bradesco são campeões em juros altos para pessoas físicas, entre os grandes bancos do país. Na outra ponta, a Caixa Econômica Federal cobra os valores mais baixos.

O blog Achados Econômicos comparou as taxas de juros do Banco do Brasil, Itaú, Bradesco, Caixa, Santander, HSBC e Banrisul, no período de 25 de fevereiro a 5 de março, fornecidas no site do Banco Central.

Foram comparadas apenas as modalidades de crédito sobre as quais há dados para todos os bancos analisados. A Caixa, por exemplo, não fez leasing de veículos no período analisado, então esse tipo de empréstimo não entrou no ranking.

Das oito modalidades consideradas, o HSBC tem a maior taxa em duas e a segunda maior em uma. O Bradesco tem também a a maior taxa em duas categorias, mas nas demais está na terceira posição ou abaixo dela.

Em seguida, aparecem empatados Itaú, Santander e Banrisul. O Itaú teve a maior taxa em duas modalidades, mas também a menor a menor em uma, ficando com um saldo de um ponto. Os outros dois apresentaram a maior taxa em um tipo de empréstimo cada.

O Banrisul, o mais caro para crédito consignado privado, informa que esse tipo de operação “não faz parte da estratégia comercial do banco” e que somente faz esse tipo de negócio “mediante consulta por parte dos clientes”.

O Banco do Brasil não tem o maior juro em nenhuma modalidade e tem o menor em uma.

A Caixa é, disparado, o banco mais barato para tomar empréstimo. Tem a menor taxa de juros em seis das oito modalidades analisadas e não cobra o valor mais alto em nenhuma categoria.

No ano passado, o blog comparou as tarifas dos serviços bancários. O resultado foi basicamente o mesmo: HSBC e Bradesco tinham os preços mais altos, enquanto a Caixa era o banco mais barato.

Veja abaixo o ranking de taxas de juros em cada modalidade. Devo lembrar que o ranking se refere às taxas médias praticadas por cada banco. Alguns clientes acabam pagando juros menores por terem um melhor relacionamento com a instituição financeira (por exemplo, quando são correntistas antigos, sempre pagaram em dia etc) ou por apresentarem melhores garantias.

Achados Econômicos vai acompanhar esses dados mensalmente. Sempre que houver alguma mudança significativa no ranking, o leitor será avisado aqui e na página do blog no Facebook.

 

cheque especial

consignado inss

consignado publico

consignado privado

credito pessoal

imobiliarioveiculosoutros bens

Outro lado

Procurado, o Bradesco afirmou que “trabalha com banda de taxas, que variam de acordo com o segmento e o perfil do cliente, portanto as taxas médias informadas refletem o perfil diário das contratações no período divulgado”.

O Santander disse que “avalia constantemente as condições do mercado para oferecer aos clientes a melhor relação entre custo e benefício em seus produtos e serviços”.

O Banco do Brasil considera que “tem uma posição muito boa comparada ao restante do mercado”.

O Banrisul acrescentou que as taxas informadas são a média do mercado e que “variam de acordo com fatores diversos, tais como o valor e a qualidade das garantias apresentadas na operação, a proporção do pagamento de entrada da operação, o histórico e a situação cadastral de cada cliente, o prazo da operação, entre outros”.

O Itaú e o HSBC não se manifestaram a respeito do assunto até o fechamento deste texto.


Inflação fica 3 anos e meio acima do centro da meta e bate recorde
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Sílvio Guedes Crespo

Atualizado às 14h40

reais sergio moraes reuters

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O índice oficial de inflação no Brasil, quando medido em intervalos de 12 meses, está acima do centro da meta do governo, que é de 4,5% ao ano, há três anos e meio.

A última vez em que o indicador ficou abaixo daquele marco foi no período de 12 meses encerrado em agosto de 2010 (4,49%). Desde então, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) tem avançado em média 6% ao ano e atingiu seu pico em setembro de 2011 (7,31%). Nos 12 meses encerrados em fevereiro, ficou em 5,7%.

Desde que o sistema de metas de inflação foi adotado, em 1999, o IPCA nunca se manteve por tantos meses seguidos acima do objetivo. O segundo maior período de inflação acima da meta foi registrado entre janeiro de 2001 e março de 2004 (39 meses).

Se compararmos a atuação de cada presidente, Dilma Rousseff foi, até agora, quem manteve a inflação por mais tempo acima do centro da meta, como proporção ao tamanho do mandato. O IPCA ficou acima de 4,5% durante 100% do período em que ela está no cargo.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso aparece em segundo. Dos 48 meses em que seu governo teve que obedecer ao sistema de metas, em 36 a inflação ficou acima do número prometido, ou 75% do tempo.

Luiz Inácio Lula da Silva foi, portanto, quem manteve o melhor desempenho nesse aspecto até agora. O IPCA ficou acima do centro da meta em 67 meses, ou 70% dos 98 meses em que o ex-presidente esteve no cargo.

De 1999 até hoje, a inflação ficou acima do centro da meta em 77% do tempo.

Para essa análise, considerei as metas ajustadas de 8,5% em 2003 e 5,5% em 2004. No ano de 2002, a inflação atingiu 12,53%, sendo que a meta para o ano seguinte seria de 3,25%. Recém empossado presidente do Banco Central, em janeiro de 2003, Henrique Meirelles escreveu uma carta aberta ao Ministério da Fazenda argumentando que o governo anterior havia excedido a meta em nove pontos percentuais e, por isso, seria impossível fazer os preços convergirem para uma alta de 3,25% em apenas um ano. Meirelles calculou somente a inflação inercial herdada de 2002 teria um impacto de 4,2 pontos percentuais no IPCA.

Teto da meta

O sistema de metas de inflação define também um teto e um piso de tolerância, hoje em 6,5% e 2,5%, respectivamente.

Nosso histórico mostra que temos respeitado o limite superior na maior parte das vezes. Desde 1999, a inflação medida em intervalos de 12 meses só ficou acima do teto da meta em 27% do tempo.

Com esse tipo de medição, durante o governo Dilma, o IPCA superou o limite em apenas 9 dos seus 38 primeiros meses no cargo, ou 24% do período.

Com Lula, a inflação estourou o teto em 16 de 96 meses (17%). Como Meirelles não explicitou, na carta, qual seria o teto da meta ajustada em 2003 e 2004, considerei uma tolerância de 2,5 pontos percentuais acima do centro, que havia sido definida pelo governo anterior na resolução de 27 de junho de 2002.

No período FHC, houve o pior desempenho por esse tipo de medição. O IPCA ficou acima do teto em 24 dos 48 meses que compuseram o segundo mandato, ou 50% do período.

Regras

Pelas regras definidas no Conselho Monetário Nacional, as metas de inflação servem apenas para o ano cheio. Por exemplo, no ano passado, o IPCA chegou a atingir 6,7% nos 12 meses encerrados em junho. Mas isso não conta como um descumprimento da meta. Só contaria se ficasse acima de 6,5% no período de janeiro a dezembro.

Considerando apenas os anos cheios, a inflação só não ficou acima do centro da meta em 2000, 2006, 2007 e 2009. Ela superou o teto em 2001, 2002 e 2003.

Os simpatizantes de cada presidente costumam ter seus argumentos para justificar as metas estouradas. Por exemplo, partidários de FHC podem dizer que o culpado pela inflação de 12,5% em 2002 foi Lula, pois naquela ocasião muitos investidores temiam a chegada do petista ao poder e retiraram seu dinheiro do país, provocando uma desvalorização do real e a consequente aceleração de preços.

Já quem apoia Dilma pode citar a retirada dos estímulos dos Estados Unidos como motivo da recente alta do dólar e, consequentemente, do IPCA.

De qualquer maneira, os dados citados até aqui mostram que, historicamente, a inflação no Brasil tem ficado entre o centro e o teto da meta.


IR e Bolsa Família reduzem desigualdade; outros impostos elevam, diz estudo
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Sílvio Guedes Crespo

Atualizado às 13h53*

Beneficiária do Bolsa Família trabalha em lixão em Jaboatão dos Guararapes, PE (MAIS)

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O Banco Mundial mediu o efeito dos impostos e das políticas de transferência de renda sobre a desigualdade econômica em países da América Latina.

Os pesquisadores notaram que, no Brasil, no Uruguai e no México, esses fatores têm gerado uma redução sensível das disparidades de renda, enquanto no Peru o impacto foi pequeno, e na Bolívia, nulo.

O estudo, intitulado “Social gains in the balance” (“Ganhos sociais na balança”, em tradução literal), constatou que a desigualdade no Brasil diminui quando são descontados do rendimento das pessoas os tributos diretos, como o Imposto de Renda, o IPTU e o IPVA, assim como quando são contabilizados os impactos dos programas de transferência de renda, como o Bolsa Família.

Já os tributos indiretos (aqueles que são embutidos nos preços dos produtos, como o ICMS e o ISS) aumentam a desigualdade, mas não o bastante a ponto de reverter a redução provocada pelos impostos diretos e pela transferência de renda, segundo o Banco Mundial.

O trabalho mede a desigualdade econômica por meio do coeficiente de Gini, um indicador que varia de zero a um, em que zero significaria igualdade total e um seria uma situação de desigualdade extrema.

Foram definidos diferentes conceitos de renda e para cada um deles foi calculado o coeficiente de Gini, como indica o gráfico mais abaixo.

Renda de mercado: é o rendimento bruto das famílias, antes da intervenção do Estado por meio de impostos diretos e de programas de transferência de renda. Quando se considera a renda de mercado da população, o índice de Gini no Brasil é de 0,579.

Renda líquida de mercado: é a renda de mercado menos os impostos diretos. Nesse caso, o coeficiente de Gini cai para 0,565. Isso ocorre porque o Imposto de Renda é progressivo, ou seja, os que ganham menos são isentos ou pagam menos. Os impostos diretos retiram parte do rendimento dos mais ricos, diminuindo a desigualdade.

Renda disponível: é a renda líquida de mercado mais o dinheiro recebido por programas de transferência de renda, como o Bolsa Família. Quando esse valor é contabilizado, temos a maior queda da desigualdade, em que o coeficiente de Gini fica em 0,544.

Renda pós-fiscal: é a renda disponível menos os impostos indiretos. Os pesquisadores calcularam o peso de tributos como ICMS e ISS na renda das famílias de diversos estratos sociais. Como os pobres são mais afetados do que os ricos por esse tipo de tributação, o coeficiente de Gini teve ligeira alta nesse cenário, para 0,546.

coeficiente de gini

Opinião

É possível que alguns dos leitores que chegaram até aqui estejam indignados com a informação de que os tributos, ao menos os diretos, têm o lado bom de reduzir a desigualdade econômica.

Para muita gente, imposto é sinônimo de roubo. O raciocínio é mais ou menos o seguinte: “Sou eu que acordo cedo para trabalhar, fui eu que estudei e me preparei para chegar aonde cheguei. Por mérito próprio, sem nenhuma ajuda do Estado, construí meu patrimônio e não é certo que o governo tire parte dele para transferir a quem não teve a mesma competência que eu”.

Essa ideia só parece justa para quem não percebe a enorme desigualdade de oportunidades no país. Vou tomar como exemplo um caso pessoal. O neto da empregada dos meus pais frequentou minha casa durante parte da infância. Ele se chamava Edicarlo e tinha a minha idade.

Eu sempre soube, não sei como, que teria um futuro melhor que o dele. Eu estudava em uma escola melhor e não tinha feito nada a mais que ele para merecer isso. Meus pais podem ter feito, mas eu não. Quando estávamos na terceira série, vi que ele ainda estava aprendendo multiplicação, enquanto eu já passava pela fração.

Depois, comecei a estudar inglês e francês fora da escola regular, o que, nem precisaria dizer, era impensável para o Di, como era chamado. Isso para não falar que meu pai me ensinava música e discutia comigo meus trabalhos de história e filosofia, enquanto minha mãe corrigia meu português (e até hoje lê todos os posts que escrevo, mas aí já são outros quinhentos).

Além do mais, meus vizinhos e colegas também eram filhos da classe média e desenvolvemos, juntos, padrões de comportamento que depois se revelaram adequados aos anseios dos empregadores. Mais tarde, vários dos meus amigos de infância se tornaram excelentes contatos profissionais. Enfim, tínhamos todas as condições de entrar no mercado de trabalho pelo andar de cima.

Já na faculdade, em uma determinada manhã recebi a notícia de que Di havia sido assassinado, após uma briga em um campeonato de futebol na favela. Além de não ter nenhum dos benefícios que eu tinha por ser de classe média, ele ainda enfrentava o desafio de morar em um ambiente altamente instável, para dizer o mínimo. Se Di quisesse chegar aonde eu cheguei, ele deveria ser muitas vezes mais competente do que eu.

Não considero racional, portanto, o argumento de que tudo o que tenho foi obtido exclusivamente por mérito meu. Sem falsa modéstia, acredito que aproveitei bem as oportunidades que tive, mas certamente tive mais oportunidades do que muita gente.

Há quem diga que o crescimento econômico seria suficiente para combater a desigualdade. Essa ideia está errada. A expansão do PIB (produto interno bruto) pode reduzir a pobreza, mas não a desigualdade. Pode aumentar a quantidade de bens e serviços a que parte dos pobres tem acesso, mas elevará também as posses dos mais ricos, sem diminuir significativamente a distância entre os dois grupos.

Por exemplo: os favelados só têm celular hoje por causa do capitalismo. Mas o mesmo capitalismo não deu a eles o acesso a boas escolas e hospitais nem aos contatos profissionais que os ricos têm desde pequenininhos – muito menos à herança a que os filhos de proprietários têm direito. Por mais que se melhorem as condições dos pobres, os ricos, se dependermos só do mercado, sempre terão melhores perspectivas.

A única forma que conheço de combater a desigualdade de oportunidades é o estabelecimento de políticas públicas com essa finalidade, nas áreas de educação, saúde e outras (além da transferência de renda como medida emergencial), que não podem ser bancadas senão com dinheiro de impostos. Projetos sociais de empresas são complementos importantes e talvez indispensáveis.

Mas é fundamental que existam programas sociais de Estado. Os empresários, quando desenvolvem um projeto em uma comunidade, por exemplo, podem aceitar as sugestões daqueles que são beneficiários. Porém, somente aceitam se quiserem. Já quando se trata de uma política de Estado em um país democrático, as decisões representam o conjunto dos cidadãos – até os mais pobres têm o direito de tentar influenciar e de exigir que as promessas sejam cumpridas. Se o setor público não oferece o retorno esperado, entramos em outro problema.

Aqui, precisaríamos de um complemento a esse estudo do Banco Mundial, que não examina a gestão do dinheiro público. (E nem é esse o objetivo da pesquisa, que é bastante abrangente e aprofundada ao mesmo tempo; o fato de não ter examinado essa outra seara não a torna, de maneira nenhuma, desimportante.)

Em tese, mesmo os impostos diretos podem ser usados para aumentar a desigualdade social – por exemplo, se toda a quantia arrecadada for distribuída para quem já é rico. Nessa questão, não há muito segredo. Para que o dinheiro público seja bem gasto, a população precisa acompanhar os movimentos dos seus representantes e examinar friamente suas atitudes. Friamente quer dizer: sem torcida. Sem argumentos falsos ou “memes” mentirosos.

Um exemplo clássico de argumento falso quando se fala em desigualdade de oportunidades é citar uma exceção como se ela tivesse potencial para virar regra. Claro que há pessoas que vieram de famílias extremamente pobres e subiram na vida. São casos excepcionais.

O que não faz sentido é dizer que, se um pobre ficou rico, todos deveriam ser capazes de ficar. Se isso fosse verdade, então todas as pessoas de classe média teriam de ser competentes o bastante para criar uma empresa como o Google ou Facebook. No Brasil, os que não conseguirem podem culpar os impostos, o custo Brasil etc. Mas mesmo nos EUA e em qualquer lugar do mundo, pessoas como Mark Zuckerberg são exceções. E as políticas públicas não podem ser direcionadas para as exceções.

***

Adendo

Alguns leitores parecem ter entendido que eu defendo a transferência de renda como única política pública de um governo.

Apesar de eu jamais ter dito isso, vou tentar deixar mais claro. Em certo parágrafo, afirmo: “A única forma que conheço de combater a desigualdade de oportunidades é o estabelecimento de políticas públicas com essa finalidade”. Para não haver dúvida, acrescento o seguinte: “nas áreas de educação, saúde e outras (além da transferência de renda como medida emergencial)”.

Adendo 2

Os resultados do Brasil apresentados pelo Banco Mundial foram baseados no estudo “Os efeitos da alta tributação no Brasil e dos gastos sociais sobre a distribuição da renda das famílias”. A íntegra desse trabalho pode ser acessada aqui.

* Acrescentado o item ‘Adendo 2′ às 13h53


Inflação de 0,69% é a maior para meses de fevereiro desde 2011
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Sílvio Guedes Crespo

Atualizado às 11h38*

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O índice oficial de inflação apontou que os preços no país subiram 0,69% no mês passado, o que representa o maior aumento, para meses de fevereiro, dos últimos três anos.

A última vez em que o indicador superou 0,69% em um mês de fevereiro foi em 2011, quando atingiu 0,8%.

ipca fevereiro

Os dados são do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), medido pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

A inflação em janeiro havia sido de 0,55%; em fevereiro do ano passado, de 0,6%. Nos últimos 12 meses, atingiu 5,68%.

A meta do governo para 2014 é de 4,5%, com tolerância de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

Se considerarmos não só os meses de fevereiro, a alta foi a maior desde dezembro do ano passado (0,92%). Mas, quando se trata de inflação, é melhor comparar sempre com o mesmo mês dos anos anteriores, pois os preços sofrem muita influência de fatores sazonais.

Em meses de fevereiro, por exemplo, a alta costuma ser puxada pelos reajustes de mensalidade escolar. Neste ano, o custo dos cursos regulares subiu 7,64%. Com isso, o conjunto de itens que o IBGE classifica como “Educação” aumentou 5,97%.

Do 0,69% que foi a inflação em fevereiro, mais de um terço (0,27 ponto percentual) foi provocado pelo grupo Educação.

Análise

Observando os dados históricos de meses de fevereiro no gráfico acima, vemos que estamos em um patamar inferior ao dos anos de 2010 e 2011 e bem abaixo do pico de 2003.

Mesmo assim, a situação atual preocupa porque estamos vindo de uma sequência de três aumentos seguidos do IPCA de fevereiro e, neste momento, os dados de conjuntura não apontam para uma redução significativa da inflação.

Analistas consultados pelo Banco Central esperam que a inflação em todo o ano de 2014 fique em 6%. Para 2015, a previsão é de 5,7%, ou seja, uma leve queda do ritmo de aumento de preços.

A projeção do BC é de que a inflação fique em 5,3% em 2014 – portanto, acima do centro da meta do governo, que é de 4,5%, mas abaixo do teto de tolerância, de 6,5%.

Quando se calcula a inflação acumulada em 12 meses, ela está acima do centro da meta desde 2010. Isso ocorreu apesar de o BC ter aumentado fortemente a taxa básica de juros, de 7,25% ao ano, em abril de 2013, para os atuais 10,75%.

Quando o BC iniciou este ciclo de aumento de juros, em abril do ano passado, a inflação acumulada nos 12 meses anteriores era de 6,49%. Hoje, está em 5,68%.

Vários fatores explicam por que os preços desaceleraram pouco desde o início daquele ciclo. Primeiro, que o impacto do aumento das taxas de juros sobre os preços não é imediato. Ao contrário, existe uma grande defasagem entre as decisões do BC o efeito nos preços.

Em segundo lugar, ao mesmo tempo em que os juros aumentaram, o dólar também subiu. Com isso, o preço de produtos importados tende a se elevar, pressionando a inflação.

Outro ponto é política fiscal. Quando o governo aumenta os gastos – e isso ocorreu no ano passado e também anteriormente – ele faz com que a demanda por bens e serviços também se eleve, o que constitui outra pressão na inflação.

Existem também fatores climáticos que influenciam o preço de alimentos. Economistas ouvidos pelo Valor Econômico disseram que a falta de chuva fez aumentarem os preços de produtos in natura e que a tendência é de esse problema se intensificar em março.

* Acrescentado o item ‘Análise’ às 11h38


Expansão de 2,9% da indústria em janeiro é a maior em um ano
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Sílvio Guedes Crespo

Atualizado às 11h58*

industria Fernando Donasci UOL

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Logo depois de ter sofrido sua pior queda mensal desde a crise de 2008, a indústria brasileira agora registra a maior alta dos últimos 12 meses. Sinal de que o quadro de instabilidade verificado no ano passado – em que o setor alternava momentos de alta e de baixa – ainda não ficou para trás.

A produção industrial subiu 2,9% de dezembro para janeiro. Nesse tipo de medição – comparando a variação de um mês para o outro, sempre com ajuste sazonal – a última vez em que foi constatada uma expansão maior que essa foi na passagem de dezembro de 2012 para janeiro de 2013 (alta de 3,2%).

Os números, divulgados nesta terça-feira (11) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mostram que o desempenho da indústria em janeiro foi suficiente para recuperar apenas parte das perdas de dezembro, quando a produção havia recuado 3,7%.

ANÁLISE

Por causa dessa instabilidade na produção industrial que temos visto nos últimos meses, com alternância entre breves fases de alta e de baixa, acredito que não se pode entender o que está acontecendo sem olhar para o desempenho do setor em um período um pouco mais longo. Sugiro analisar a variação da produção em períodos de 12 meses.

Nos 12 meses encerrados em janeiro, a produção industrial teve uma alta de 0,52%. Nesse tipo de cálculo, o desempenho tem ficado entre 0,5% e 1,2% desde julho do ano passado. Ou seja, o setor vem mantendo um crescimento fraco desde meados do ano passado.

Antes disso, no entanto, a situação estava pior. De janeiro de 2012 a maio de 2013, a variação da produção industrial em períodos de 12 meses ficou sempre negativa, variando entre -0,4% e -2,9%.

Isso quer dizer que o cenário, hoje, está melhor em comparação com a retração ocorrida naquele período, mas não está nem de longe no mesmo ritmo que tivemos no final da década de 2000.

A esperança de que o ritmo melhore – ou que pelo menos não voltemos a ver uma queda como a de 2012 – está no fato de que o único segmento da indústria que vai bem é o de bens de capital, ou seja, de equipamentos usados na própria produção.

Nos últimos 12 meses, os bens de capital tiveram um avanço de 12,1%, o maior desde abril de 2011.

producao industrial categorias de uso

Já os bens intermediários (produtos que são consumidos pela indústria, como combustíveis, peças usadas na linha de montagem etc) caíram 0,53%. Os bens de consumo, por sua vez, recuaram 0,83%, sempre considerando os últimos 12 meses.

O fato de os bens de capital serem, atualmente, o segmento que mais cresce – e disparado –indica que as empresas estão modernizando ou ampliando suas instalações. E ninguém faz isso se não tiver interesse de aumentar a produção ou melhorar o seu desempenho.

Alguns economistas têm observado que o ramo que mais cresce dentro do segmento de bens de capital é o de caminhões, não o de máquinas usadas nas fábricas. De fato, os equipamentos de transporte industrial tiveram uma alta de 16,1% nos últimos 12 meses.

Mas os demais bens de capital avançaram 9% no mesmo período, um resultado nada desprezível se considerarmos o histórico recente. Há um ano, em janeiro do ano passado, esse ramo havia encolhido 11,5%. Nos últimos 12 meses, portanto, a indústria de bens de capital recuperou ao menos parte do que havia perdido ao longo do fraco ano de 2012.

Conjuntura

É evidente que não se pode basear as expectativas econômicas apenas no histórico estatístico. Enquanto o aumento da produção de bens de capital representa uma esperança, se não de retomada, pelo menos de que não haverá retração neste ano, alguns fatores de conjuntura nacional e internacional geram preocupação.

Três dos principais clientes do Brasil estão longe da sua melhor forma. A China desacelerou seu ritmo de crescimento do PIB (produto interno bruto) nos últimos três meses. Em todo o ano passado, a expansão foi de 7,7%, muito abaixo da taxa de dois dígitos verificada na década de 2000.

A União Europeia, embora não esteja mais causando grandes turbulências nos mercados globais, também não está ajudando muito. Seu PIB subiu apenas 0,4% em 2013.

A Argentina, outro importante parceiro comercial, não só está em crise como não se cansa de erguer barreiras a produtos brasileiros.

Internamente, temos alguns problemas que podem afetar a disposição dos empresários em investir. Além dos entraves antigos (infraestrutura ruim, burocracia excessiva etc), temos este ano juros mais altos, inflação ainda acima do centro da meta.

No lado bom, temos a promessa, da presidente, de conter os gastos públicos (o que ameniza o endividamento do país e dá mais segurança a investidores) e a alta do dólar, que, embora prejudique parte da sociedade, para exportadores acaba ajudando.

A questão é se os juros altos e a inflação não vão ser um problema grande o bastante a ponto de anular todo o benefício que a queda do real poderia trazer para a indústria.

Acrescentado o item “Conjuntura” às 11h58*


Dívida da Petrobras aumenta seis vezes desde 2007; entenda
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Sílvio Guedes Crespo

Atualizado às 9h32

Rafael AndradeqFolhapress

Foto: Rafael Andrade/Folhapress

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A dívida da Petrobras aumentou mais de seis vezes desde 2007, segundo as demonstrações financeiras da companhia divulgadas na semana passada. O valor, que estava em R$ 39,7 bilhões em dezembro daquele ano, atingiu R$ 267,8 bilhões no final de 2013. Somente no ano passado, a alta foi de 36%.

Se considerarmos apenas a dívida líquida, ou seja, a diferença entre o que a empresa está devendo e o que ela tem em caixa, o aumento foi ainda mais forte, pois alcançou R$ 221,6 bilhões em 2013, oito vezes mais que em 2007 e 50% acima do registrado no final de 2012.

divida total e liquida da petrobras

Os dados foram levantados pela economista Paula Barbosa, da UFRJ, a pedido do blog Achados Econômicos. Ela é autora do estudo “O endividamento da Petrobras com o BNDES no período pós-2008”, publicado pela Fundação Getulio Vargas.

A economista observa que o crescimento da dívida tem sido maior do que a evolução dos lucros ou da capacidade da empresa de gerar caixa.

Em 2007, o endividamento da companhia correspondia a 185% do lucro líquido. Hoje, a relação é de 1.136%, o que quer dizer que a empresa precisaria de 11 anos de trabalho para chegar ao valor atualmente devido aos credores.

Mas o lucro líquido, embora seja um indicador fácil de ser compreendido, não é o melhor parâmetro para com a evolução da dívida, pois sofre influência de fatores que nada têm a ver com o bom funcionamento da empresa.

Por exemplo, quando um conglomerado vende uma de suas empresas, o dinheiro que entra, se não for gasto em seguida, é registrado como lucro. Então um desavisado pode olhar para a demonstração de resultados, notar que o lucro disparou e achar que a companhia está em ótima forma, quando na verdade ela pode estar se desfazendo de negócios justamente por viver uma crise.

Outro exemplo de como o lucro é uma medida enganadora: uma empresa pode aproveitar que está em ótimo momento e usar parte dos seus ganhos para fazer uma grande amortização de sua dívida. Nesse caso, quem olhar só para o lucro vai achar que a companhia não vai tão bem.

Por isso, Barbosa sugere que olhemos não só para o lucro, mas também para a relação entre a dívida líquida e o Ebitda ajustado. Ebitda é a sigla em inglês para “lucro antes do pagamento de juros, impostos, depreciações e amortizações”. O Ebitda ajustado, particularmente, elimina fatores extraordinários, como a compra ou venda de ativos da empresa.

Em 2010, a dívida líquida era igual ao Ebitda ajustado. Hoje, ela é 3,5 vezes maior, de acordo com dados levantados por Barbosa.

indice divida luiqda petrobras

A Petrobras destaca que os reajustes no preço dos combustíveis (20% no diesel e 11% na gasolina), o aumento da produção de derivados e a otimização dos custos  no ano passado contribuíram para um aumento de 11% no lucro líquido da empresa e de 18% no Ebitda ajustado – o que ameniza o fato de a dívida ter subido 36% em 2013.

Em outubro, a agência de classificação de risco Moody’s rebaixou a nota da Petrobras, argumentando que a alavancagem (relação entre dívida e lucro) está alta e que o fluxo de caixa tende a ficar negativo nos próximos anos.

A favor da companhia, não podemos nos esquecer de que ela conseguiu tomar emprestados US$ 5,1 bilhões no exterior em janeiro, prova de que muitos investidores continuam apostando na empresa e acreditam na sua capacidade de pagar as dívidas.

A estatal diz que a dívida cresceu por causa da necessidade de investimentos com o pré-sal e acrescenta que a situação está sob controle. “Com a maturação dos investimentos atuais (que contribuirá para a elevação da produção já em 2014 e nova capacidade de refino) e a consequente elevação da geração de caixa, haverá uma reversão desses indicadores. A nossa expectativa é  que em 24 meses nós tenhamos atingido os níveis indicados pelo Conselho de Administração: alavancagem menor do que 35% e dívida líquida/Ebitda menor do que 2,5 vezes”, afirmou a petrolífera, por meio de sua assessoria de imprensa.

Entrevista

De um lado, portanto, vemos diversos analistas apontando um aumento do risco da Petrobras, o que foi expresso na decisão da agência Moody’s. De outro, temos que considerar que ao menos parte da elevação da dívida se deveu à necessidade de investimento, o que é positivo. Para ajudar a explicar o assunto, a economista Paula Barbosa deu a seguinte entrevista ao blog Achados Econômicos.

Pergunta: O que explica o aumento da dívida da Petrobras?

Resposta: Houve dois grandes fatores. Primeiro, com o pré-sal aumentou a necessidade de investir, por exemplo, em equipamentos, estudos, perfurações tc. A Petrobras hoje é uma das empresas de petróleo que mais investem em descobertas, o que é bom. Mas isso aumenta a necessidade de caixa.

Em segundo lugar, tivemos uma conjuntura nacional e internacional desfavorável. Com a crise de 2008, diversas ‘torneiras’ dos bancos estrangeiros se fecharam. A Petrobras teve que se socorrer com bancos públicos nacionais para cobrir despesas de curto prazo.

P: Então o crescimento da dívida ocorreu por um bom motivo, que foi a necessidade de investimento?

R: Sim. Mas depois, outros fatores entraram e não ajudaram, como a disparidade entre preços no Brasil e no exterior [o preço do petróleo aumentou no mundo, mas a Petrobras não repassou inteiramente essa elevação para seus clientes, de modo que ela perde dinheiro quando importa gasolina e vende-a mais barata]. Além disso, a gestão operacional não foi equacionada da melhor forma possível. Nos últimos dez anos, a empresa teve um crescimento muito forte dos projetos, mas deixou de atingir metas. As estimativas de gastos e custos ficaram sempre aquém do que foi efetivamente realizado.