Achados Econômicos

Arquivo : fevereiro 2014

Com Dilma, economia do país cresce no menor ritmo desde Collor
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Sílvio Guedes Crespo

Collor, Sarney, Lula, Dilma e FHC

Collor, Sarney, Lula, Dilma e FHC

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A economia brasileira medida pelo PIB (produto interno bruto) cresceu 2,3% em 2013, depois de uma expansão de 1% em 2012 e de 2,7% em 2011, de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Nos três primeiros anos da presidente Dilma Rousseff, portanto, o crescimento médio foi de 2%. O número é metade do verificado na gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (4%), e ligeiramente inferior ao registrado no período de Fernando Henrique Cardoso (2,3%).

Também está bem abaixo do desempenho do período Itamar Franco (5%), mas muito acima da variação de -1,3% ao ano verificada nos três anos do ex-presidente Fernando Collor de Mello.

O gráfico abaixo mostra qual foi o ritmo de crescimento médio anual do PIB durante o mandato de cada presidente.

crescimento do pib por presidente 1

Apenas por curiosidade, calculei a média desde Getulio Vargas, que chegou ao pode em 1930. Mas naquela época as condições eram tão diferentes que não dá nem para comparar. Além de uma conjuntura nacional e internacional completamente diversa, o ritmo de crescimento da população era muito maior. Portanto, os dados que vão dos anos 1930 a mais ou menos 1980 estão aí só a título de curiosidade, mesmo.

Só para não perder a viagem, acrescento que, de 1930 até hoje, a economia brasileira registrou um crescimento acumulado de 5.134%.

Mundo

Em comparação com outros países, o período em que o PIB do Brasil teve o melhor desempenho desde 1990 foi o de Itamar, com um crescimento de 5%, acima da média do mundo, da América Latina e dos países emergentes e pobres.

pib por presidente brasil mundo america latina emergentes 01

No gráfico acima, os dados de 2013 são estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI), pois muitos países ainda não divulgaram o PIB do ano passado.

A economia brasileira cresceu menos do que a do mundo nos governos Collor e FHC, assim como nos três primeiros anos de Dilma. O país só superou ritmo do restante do planeta durante as gestões de Itamar e Lula.

No grupo dos emergentes e pobres há 154 nações que o FMI classifica dessa forma. Na América Latina, foram considerados 32 países, incluindo a região do Caribe. No mundo, incluí os 189 países sobre os quais o FMI tem dados.

Comparações

Com este texto, o blog Achados Econômicos encerra uma série de comparações do desempenho da economia brasileira no período de cada um dos últimos presidentes da República.

Considerando as séries históricas disponíveis, o período Dilma foi o melhor em termos de emprego e renda.

Quanto à balança comercial (diferença entre exportações e importações), à inflação e ao equilíbrio das contas públicas, a média anual desses indicadores nos anos Dilma foi menos favorável do que na era Lula e mais do que no período FHC.

Em relação à indústria, o ritmo de crescimento no governo Dilma é o menor desde Collor, como ocorreu com o PIB.

Como venho afirmando desde a primeira postagem desta série, a comparação do desempenho de indicadores econômicos não deve ser a única nem a principal maneira de avaliar um presidente, pois a economia é influenciada por diversos fatores que não estão ao alcance do chefe do Poder Executivo.

Mesmo assim, esse tipo de comparação é importante porque mostra quais foram os principais desafios macroeconômicos do país durante o mandato de cada um e ajuda a entender por que alguns presidentes se tornaram mais populares do que outros.

Se olharmos, por exemplo, para o período Lula, que encerrou seu segundo mandato sendo aprovado por mais de 80% da população adulta, os indicadores de emprego, renda, PIB, balança comercial, contas públicas e inflação estavam melhores do que o do seu antecessor, FHC. Este, por sua vez, foi nitidamente superior aos que o antecederam em termos de combate à inflação, como todos sabemos, o que explica sua eleição em 1994 e, provavelmente, sua reeleição, em 1998.


Opinião: Lula publica mini ‘Carta ao Povo Brasileiro’
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Sílvio Guedes Crespo

lula instituto lula reproduca

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O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva publicou no jornal “Valor Econômico” o que me parece uma mini Carta ao Povo Brasileiro.

No artigo, reconheceu duas vezes que o governo erra e acrescentou que está disposto a mudar na direção que o mercado quer (“Um país robusto não se intimida com as críticas; aprende com elas”; “Cometemos erros, naturalmente, mas a boa notícia é que os reconhecemos e trabalhamos para corrigi-los”).

Nas entrelinhas, entendi que foi um recado a investidores no qual ele quis dizer o seguinte:

***

Pessoal, sei que a Dilma andou pisando na bola com vocês e me sinto um pouco responsável, afinal fui eu que a indiquei.

Mas eu queria dizer que ela está entrando nos eixos. Vejam, ela já desistiu daquele negócio de ficar controlando o que vocês vão ganhar nos leilões de infraestrutura. Vocês gostaram do modelo novo de concessão? A partir de agora vai ser tudo assim.

Tem também esse negócio da dívida bruta, que eu sei que tira o sono de vocês. Mas olhem só: a Dilma já se comprometeu a cortar mais de R$ 40 bilhões do orçamento. E outra: sabe esse dinheiro que a gente pega emprestado a juros altos e empresta para as empresas a juros baixos? Isso a gente vai diminuir. Assim, a dívida bruta vai ficar controlada, não se preocupem.

Em relação à inflação, ok, ela está acima dos 4,5% que a gente combinou. Mas, em primeiro lugar, não vamos esquecer que no último ano do FHC ela estava em 12,5%, e hoje está em 5,9% (kkkkkk..). Tá bom, sei que isso não é suficiente e eu prometo que a Dilma vai colocar a inflação no centro da meta.

Então, vamos dar um voto de confiança para a presidenta? Eu garanto que ela vai fazer tudo isso.

Para garantir mesmo, vou publicar no jornal. Vou deixar registrado que essa é a minha opinião. Se a Dilma resolver fazer diferente, é por conta dela. E já que eu vou publicar um artigo, vou aproveitar e lembrar vocês de novo de tudo o que aconteceu de bom desde que eu fui eleito, porque ninguém é de ferro. E vou falar também das políticas sociais (essa parte vocês aprovam, vai?).

Nos vemos em outubro?

Abração,

Lulinha Paz e Amor”

***

Para quem não se lembra, a Carta ao Povo Brasileiro foi o texto que Lula divulgou em junho de 2002, comprometendo-se a não assumir uma posição antimercado caso fosse eleito. “Lulinha Paz e Amor” foi uma expressão que ele adotou naquela época, para mostrar que estava de bem com o mercado.

Em meio a rumores de que há pessoas dentro e fora do governo pedindo “volta, Lula”, o ex-presidente parece mais empenhado em mostrar a estas que convenceu Dilma a se tornar, de uma vez, um Lula de saias – pelo menos na política econômica.

Para ser uma verdadeira Carta ao Povo Brasileiro, no entanto, o artigo deveria ter ido mais longe e tocado em outras questões que desagradam o mercado, como a política de preços da Petrobras.


No Brasil, acesso a smartphones é menor que no Egito, Venezuela e China
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Sílvio Guedes Crespo

celular smartphone thikstock

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No Brasil, o acesso da população a smartphones é menor do que em países como China, África do Sul e Egito, segundo uma pesquisa do Pew Research Institute, dos Estados Unidos.

Embora mais de 80% dos brasileiros adultos tenham pelo menos um celular, apenas 15% possuem um smartphone, como o iPhone, o BlackBerry ou aparelhos que usem o sistema operacional Android.

A proporção de pessoas que têm smartphones é de 23% no Egito, 33% na África do Sul e de 37% na China. O acesso a smartphone é menor no Brasil apesar de aqui o PIB (produto interno bruto) per capita, de US$ 12,1 mil por ano, ser maior do que nesses três países.

País% da pop. que tem celular% da pop. que tem smartphone
Líbano8645
Chile9139
Jordânia9538
China9537
Argentina8334
África do Sul9133
Rússia9432
Malásia8931
Venezuela8631
Egito8823
México6321
Quênia8219
Nigéria7819
Turquia8717
Filipinas7117
Brasil8015
Gana7915
Senegal8113
Tunísia8812
Bolívia8112
El Salvador7911
Indonésia7811
Uganda594
Paquistão533

 

O percentual das pessoas que têm celular ou smartphone deve ser visto com cautela porque o estudo, embora tenha sido divulgado em fevereiro deste ano, baseia-se em dados que haviam sido coletados em abril de 2013. De lá para cá, os 15% que têm smartphone no Brasil certamente cresceram, pois as vendas do produto no ano passado subiram muito.

O mais interessante da pesquisa é a posição relativa de cada país no ranking. Ainda que os 15% do Brasil tenham subido, a maior parte dos países emergentes estudados viveu um “boom” parecido.

Esta pesquisa traz dados muito diferentes de outros levantamentos sobre o assunto porque procura informar a quantidade de pessoas que têm smartphone, e não o número de aparelhos vendidos. Um smartphone comprado por uma empresa para ser emprestado a funcionários, por exemplo, não entra nessa pesquisa da Pew Research. Por isso, o número de pessoas que têm o produto é inferior ao de aparelhos vendidos.

Também não se pode confundir a comercialização em determinados períodos com a quantidade de aparelhos ativos. No segundo trimestre do ano passado, as vendas de smartphones superaram, pela primeira vez, a de celulares simples. Mas como já existiam muito mais aparelhos simples do que aqueles mais sofisticados, ainda precisam ser vendidos muito mais produtos deste segundo grupo para que sua presença na sociedade supere a do primeiro.

Entrevista

Luciano Pereira Soares, professor de Engenharia de Computação do Insper, comenta o assunto.

Pergunta: Por que o no Brasil o acesso da população a smartphone é mais baixo do que em alguns países com PIB per capita inferior?

Resposta: Luciano Pereira Soares: Uma das razões é o preço do aparelho, com taxas de importação e outros impostos. Aqui, não temos muita fabricação, e mesmo os smartphones produzidos aqui são caros. Na China, eles são incrivelmente baratos. O país é um grande fabricante do produto. Lá você acha muitos modelos a US$ 100, em marcas locais, desconhecidas.

Quais são as outras razões?

Outra razão é o preço não do aparelho, mas do serviço de acesso à internet. Nossa infraestrutura é precária e cara. Consequentemente, os valores são altos e os serviços são ruins.

De quem é a culpa?

Em grande parte, a culpa é das operadoras, mas o governo também tem certa culpa, porque os processos licitatórios atrasam. Para instalar uma antena, é muito mais complicado aqui do que na China. Tudo isso faz com que o preço não seja compatível com a renda do brasileiro.

Existe também uma questão que é o comportamento do consumidor. A população brasileira ainda não percebeu o potencial dos smartphones. Na África do Sul, o aparelho é muito usado para fazer compras. Aqui, não.


Remessa de lucros e juros geram rombo recorde em transações com exterior
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Sílvio Guedes Crespo

dolar Lee Jae-Won Reuters

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O Brasil teve um deficit de US$ 11,6 bilhões nas suas transações com o exterior em janeiro. Trata-se de um rombo 2% maior que o registrado em igual período do ano passado (US$ 11,4 bilhões) – que, por sua vez, era o mais alto desde pelo menos 1980, quando o Banco Central começou a divulgar mensalmente esse levantamento.

Os números se referem à diferença entre o dinheiro que entrou e o que saiu do país na forma de comércio de bens, serviços e rendas.

Esse saldo negativo foi compensado pela entrada de US$ 14 bilhões na forma de investimento estrangeiro – tanto os aportes no setor produtivo quanto no mercado financeiro. Com isso, as reservas internacionais cresceram quase US$ 3 bilhões.

transacoes correntes usd

 

O gráfico mostra o saldo em dólares das transações com o exterior. Mais importante que isso, no entanto, é o saldo como proporção do PIB (produto interno bruto). Porque se o deficit sobe em ritmo igual ao PIB, então não há deterioração das contas externas.

Pelo critério de porcentagem do PIB, o deficit em conta corrente não é recode. Ficou em 3,7%, muito perto de atingir os 4% registrados de 1999 a 2002, que foi o pior momento das contas externas da história recente do país.

chartgo

Rombo nas transações correntes

Nos três principais itens em que o BC divide as transações correntes (comércio de bens, mercado de serviços e pagamentos de renda), o país está com saldo negativo.

O item “rendas” foi o que apresentou maior deficit, de US$ 4,4 bilhões – um aumento de US$ 500 milhões em comparação com janeiro do ano passado.

Isso ocorreu porque saíram do país R$ 2,5 bilhões na forma de remessas de lucros das empresas às suas matrizes no exterior e mais US$ 1,9 bilhão como pagamento de juros das companhias nacionais a bancos estrangeiros.

saldo remessas juros

O segundo item que mais gerou deficit foi a balança comercial. As importações de bens superaram as exportações em US$ 4,1 bilhões, resultado um pouco maior que o do ano passado (US$ 4 bilhões).

Nas transações de serviços, o houve um deficit de US$ 3,4 bilhões. Esse rombo resultou da nossa forte dependência de aluguel de equipamentos estrangeiros, atividade que gerou a saída de US$ 1,6 bilhão do país. Outro motivo foram os gastos de turistas no exterior, que superaram em US$ 1,5 bilhão as despesas de visitantes estrangeiros no Brasil.

A conta de transações correntes inclui, também, mais um item, que o BC chama de “transferências unilaterais” – dinheiro que os brasileiros que moram no exterior mandam para suas famílias aqui, e vice-versa. Mas o volume é muito pequeno e não faz diferença para o rombo das contas externas.

Investimento e especulação

A saída de US$ 11,6 bilhões do país por meio das nossas transações com o resto do mundo foi compensada pela entrada de US$ 14,1 bilhões na forma de investimentos estrangeiros.

O dinheiro que as multinacionais colocaram no setor produtivo brasileiro – os chamados investimentos diretos – gerou uma entrada líquida de US$ 5 bilhões no país. Esse é um capital de boa qualidade, porque gera empregos e não pode sair do país rapidamente. Uma empresa não consegue vender uma fábrica tão rápido quanto o faz com ações ou títulos de renda fixa.

O ideal seria se, sozinho, o investimento direto conseguisse cobrir todo o rombo das transações correntes, de US$ 11,6 bilhões.

Mas como a entrada de investimento produtivo foi de somente US$ 5 bilhões, o país precisou contar com mais US$ 4 bilhões na forma de investimentos em carteira e em derivativos. Ou seja, dinheiro que vem para o mercado financeiro e pode rapidamente deixar o país.

Ainda, o BC registra que entraram outros US$ 5 bilhões no país na forma de “outros investimentos”, que incluem algumas formas de empréstimos para empresas brasileiras e outros itens.


População que ‘não gostaria de trabalhar’ cresce 36% desde 2003
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Sílvio Guedes Crespo

Atualizado às 19h31*

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A taxa de desemprego caiu para 4,8% da população ativa, nível mais baixo para meses de janeiro desde pelo menos 2003, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Ao mesmo tempo, a criação de vagas com carteira assinada continua em um ritmo bem mais fraco do que no período do “boom” do mercado de trabalho, que ocorreu de 2004 a 2012.

emprego clt 2

Como pode a taxa de desemprego continuar caindo ao mesmo tempo em que a economia e a geração de vagas formais desaceleram?

Alguém poderia supor que a população está indo para a informalidade. Mas não é o caso. A taxa de formalização vem crescendo continuamente desde 2003 e, no ano passado, bateu recorde.

A resposta para a aparente contradição entre desemprego baixo, de um lado, e desaceleração da economia e da geração de empregos, de outro, está em um item que o IBGE chama de pessoas “que não gostariam de trabalhar”.

Trata-se do conjunto de indivíduos que dizem aos pesquisadores do IBGE que não só não trabalham como não querem entrar no mercado neste momento. Essas pessoas podem ser, por exemplo, aposentados, donas de casa, estudantes ou mães que não têm com quem deixar seus filhos pequenos durante o expediente.

A população “que não gostaria de trabalhar” somava, em janeiro de 2003, 12,4 milhões de pessoas nas seis regiões metropolitanas em que é feita a pesquisa. Hoje, são 16,9 milhões, uma alta de 36% em 11 anos. Já a população em idade de trabalhar cresceu 17% no período.

pessoas que nao gostariam de trabalhar

Em 2003, 33,8% das pessoas em idade ativa (dez anos ou mais) “não gostariam de trabalhar”. Atualmente, a proporção é de 39,2%.

Apesar de esse grupo ter crescido continuamente desde pelo menos 2003 (início da série de dados), só agora ele se tornou imprescindível para manter a taxa de desemprego baixo. Porque, até 2012, a população ocupada vinha crescendo fortemente (ela dobrou em dez anos).

Agora, a situação mudou. O desemprego caiu apesar de a ocupação não ter subido. A população desocupada diminuiu em 12,6% nos últimos 12 meses. Enquanto isso, a população ocupada ficou estável. A redução do desemprego decorreu do aumento do grupo que “não gostaria de trabalhar”.

Se o número de pessoas que sai voluntariamente do mercado de trabalho é superior ao das que entram, a tendência é de que quem está na ativa acabe conseguindo salários mais altos. Quanto menos pessoas disputam uma vaga, mais os empregadores terão que oferecer para atrair os melhores candidatos.

A população que “não gostaria de trabalhar”, portanto, faz a taxa de desemprego permanecer baixa e ajuda a explicar por que a renda média da população ocupada continua aumentando acima da inflação, mesmo com a desaceleração da economia e do ritmo de criação de empregos formais.

Bolsa Família

Neste e em outros artigos sobre o mercado de trabalho, li comentários e e-mails de leitores com a hipótese de que o baixo desemprego seria explicado, em parte, pelos programas de transferências de renda.

Alguns leitores perguntaram se os beneficiários do programa Bolsa Família não são considerados desempregados. A resposta é: depende. O IBGE considera desempregados aqueles que não trabalham e estão procurando emprego. Se uma pessoa não tem trabalho remunerado, recebe o Bolsa Família e está atrás de uma vaga, ela é considerada desempregada. Se essa mesma pessoa não tem procurado emprego, ela é classificada como inativa, e nesse caso entra para aquele grupo que eu citei acima, o dos que não gostariam de trabalhar.

Houve, também, a seguinte dúvida de leitor: será que as pessoas não querem trabalhar porque recebem Bolsa Família?

Essa pergunta é mais difícil de responder. Primeiro, não conheço uma pesquisa que tenha feito um cruzamento de dados mostrando quantos, entre os que não querem trabalhar, recebem Bolsa Famílias. Sem esse dado, não vejo como chegar a uma conclusão segura.

Uma pesquisa da CNT, no entanto, constatou o seguinte: 75% dos entrevistados que recebem Bolsa Família disseram que aceitariam uma oferta de emprego, mesmo se isso as fizesse perder o benefício. A minoria (20%) disse que rejeitaria (os demais não souberam responder).

O valor básico concedido a uma família cadastrada no programa é de R$ 70 por mês, o que dá menos de R$ 2,50 por dia. Se a mãe for gestante, tiver quatro filhos de até 15 anos e mais dois de 16 ou 17 anos, ela ganha R$ 306 mensais – portanto, menos de R$ 1,50 ao dia para cada um dos sete membros da família.

Parece-me pouco demais para levar uma pessoa a desprezar um emprego – só mesmo se for um trabalho extremamente degradante ou muito mal pago.

Considerando esses dois dados – o valor baixo do Bolsa Família e a pesquisa da CNT – minha hipótese é de que o programa de transferência de renda não é o principal responsável pelo aumento do número de pessoas que não querem trabalhar.

* Acrescentado o item ‘Bolsa Família’ às 19h31


Inflação e aumento de salários freiam ganhos do empresário de serviços
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Sílvio Guedes Crespo

call center shiho fukada nyt

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O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou nesta quarta-feira os resultados mais recentes da sua Pesquisa Mensal de Serviços.

Os números mostram que a receita do setor avançou 8,5% no ano passado. São examinados serviços prestados ao consumidor, como alimentação, transporte e alojamento, e também às empresas, caso de tecnologia da informação, comunicação e serviços administrativos.

Esse aumento registrado, no entanto, não desconta a inflação. A pesquisa, talvez por ter sido lançada há pouco tempo (janeiro de 2011), não tem o mesmo detalhamento de outros levantamentos do IBGE, como o da indústria e o do comércio.

O avanço de 8,5%, por isso, não pode ser comparado diretamente com, por exemplo, a expansão de apenas 1,2% da produção industrial ou o crescimento de 3,6% do volume de vendas comércio.

Como não existe um levantamento dos preços pagos pelas empresas de serviços, uma possibilidade de calcular o crescimento real é descontar o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), o indicador oficial de inflação.

Enquanto as empresas de serviços aumentaram seu faturamento em 8,5%, os preços no país subiram 5,91%. A expansão real do setor, nesse caso, ficou em 2,4%. Se comparado com o IGP-M, índice de preços calculado pela Fundação Getulio Vargas que atingiu 5,51% em 2013, o crescimento real dos serviços foi de 2,8%.

Conforme indica o gráfico abaixo, a inflação no Brasil tem corroído mais da metade das receitas do setor de serviços.

receitas servicos 2013

Essa seria uma forma de se aproximar de encontrar a taxa de crescimento real do setor de serviços. Mas o segmento faz um uso intenso de mão de obra e, portanto, a variação dos salários tem um peso importante nos custos das empresas.

O rendimento médio da população no ano passado subiu 1,8% acima do IPCA, indicando que parte do avanço real da receita foi gasta com reajustes de funcionários.


Com Dilma, ritmo de expansão do comércio cai quase à metade
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Sílvio Guedes Crespo

Atualizado às 13h35*

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O comércio varejista brasileiro continua crescendo, mas a um ritmo cada vez mais lento, mostram dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Depois de saltar 12% em 2010, o volume de vendas do setor teve uma expansão de 7% no ano seguinte, 8% em 2012 e apenas 4% em 2013.

Com isso, o comércio vem crescendo no governo Dilma a uma média de 6% anuais, pouco mais que a metade dos 11% ao ano registrados durante o segundo mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Os números se referem ao grupo que o IBGE chama de “comércio varejista ampliado”, que inclui os setores de materiais de construção e veículos, além dos demais, como supermercados, postos de combustíveis, lojas de móveis e eletrodomésticos etc.

comercio varejista ampliado 1

Como a série de dados começa em 2004, não é possível saber o ritmo de crescimento do comércio ampliado durante todo o primeiro mandato de Lula. No período de 2004 a 2006, a expansão foi de 7% ao ano.

Se considerarmos apenas o comércio restrito, que abrange todos os setores do varejo menos veículos e construção, a série histórica disponível no IBGE é maior. Nesse caso, o ritmo de alta foi de 6,4% ao ano no governo Dilma, 8,9% no segundo mandato de Lula e 4% no primeiro.

O desempenho de Dilma, portanto, caiu em relação ao do segundo período de seu antecessor, mas não a ponto de voltar ao que era na primeira etapa do governo Lula.

A pesquisa do comércio restrito começou em 2001, de modo que, em relação ao governo Fernando Henrique Cardoso, só temos os resultados dos seus dois últimos anos: queda de 1,6% e de 0,7%, respectivamente. Naquele biênio, o comércio encolheu, em média, 1,1% ao ano.

comercio varejista restrito

 

Este post faz parte de uma série de comparações da evolução dos principais indicadores econômicos durante os mandatos de cada presidente.

Nesta série, o blog já escreveu sobre balança comercial, inflação, indústria, renda e política fiscal.

Todos sabemos que os números macroeconômicos não devem ser a única nem a principal forma de mensurar a competência de um governante – até porque os resultados não dependem só deles, mas também de fatores internos e externos que estão fora de seu alcance.

Mesmo assim, Achados Econômicos tem feito as comparações por entender que os dados ajudam a dar uma ideia de quais foram os principais desafios de cada mandatário.

Opinião

Não se pode dizer que está em crise um setor que cresce 4% ao ano. Seria um ótimo resultado se todo o resto da economia também estivesse caminhando nesse ritmo.

O problema é que, enquanto a indústria andava devagar, o comércio continuava avançando a taxas chinesas e ajudava a assegurar o crescimento econômico do país. Em 2012, quando o PIB (produto interno bruto) subiu apenas 0,9%, o varejo ampliado saltou nada menos que 8%.

No ano passado, no entanto, a situação mudou. O comércio passou a se expandir em taxas mais brandas, reforçando o diagnóstico já conhecido de que o modelo de crescimento baseado no consumo, que marcou a era Lula, esgotou-se.

De 2003 a 2010, a indústria avançou 4% ao ano, enquanto o consumo aumentou 5%, de acordo com a pesquisa das Contas Nacionais, do IBGE. Nos dois primeiros anos do governo Dilma, o setor industrial ficou estagnado, mas o consumo continuava bem, com alta de 4%.

A indústria, com a valorização do real, além dos velhos problemas conhecidos como “custo Brasil” (burocracia excessiva, infraestrutura precária etc), não conseguiu crescer em 2011 e 2012. Mas o comércio se dava bem, vendendo produtos importados para uma população cuja renda ainda crescia (ainda que em ritmo mais lento do que no passado) e que ainda tinha bom acesso ao crédito.

Em 2013, a renda da população teve uma desaceleração. Ao mesmo tempo, os consumidores ainda estavam pagando dívidas contraídas em anos anteriores, o que dificultava a abertura de novos crediários. Como se esperava, o comércio também acabou sofrendo desaceleração.

Com a desvalorização do real nos últimos meses, e também com o aumento das taxas de juros, que o Banco Central aumentou para conter a inflação, as chances de que o comércio volte a crescer como na década passada ficam menores.  Os produtos importados tendem a ficar mais caros e, consequentemente, mais difíceis de serem vendidos.

A boa notícia é que a inadimplência do consumidor tem caído. Em dezembro do ano passado, dado mais recente disponível, ela estava no menor valor desde 2011, quando o Banco Central começou a coletar esses dados pela metodologia atual.

A baixa inadimplência pode ser um alento para o comércio nos curto ou médio prazo. Indica que o setor tem chance de se manter no ritmo atual por algum tempo.

“A inadimplência, agora, está até jogando a favor do varejo. As pessoas se endividaram muito na década passada, e agora estão organizando suas contas”, disse Fábio Bentes, economista da Confederação Nacional do Comércio (CNC), à jornalista Juliana Elias, do site “Mais Guide”.

Mas, com o dólar mais alto e com a renda e o crédito crescendo menos, não há o que sustente, por enquanto, uma aceleração do varejo.

Uma retomada mais sólida da economia – e, também, do comércio – vai depender, nos próximos anos, não do consumo, mas do investimento. Para os empresários voltarem a investir, o governo precisa recuperar sua credibilidade – por exemplo, mostrando que leva a sério as metas de inflação e das contas públicas. Ou então esperar por uma nova onda de bonança internacional.

* Incluído o item ‘Opinião’ às 13h35


Indústria demite 2,5% dos empregados em 2 anos e ganha produtividade
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Sílvio Guedes Crespo

foto industria fernando donasci uol

Após dois anos seguidos de demissões, a indústria brasileira voltou a ganhar produtividade, de acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

O setor reduziu seu pessoal ocupado em 1,4% em 2012 e em 1,1% no ano passado, o que dá uma diminuição acumulada de 2,5% nos últimos dois anos.

Ao mesmo tempo, a produção industrial caiu 2,5% em 2012 e cresceu 1,2% em 2013, ou seja, acumulou uma queda de 1,4% no período.

O emprego diminuiu mais do que a produção. Isso quer dizer que a indústria aumentou a produtividade do trabalho, ou seja, que hoje cada funcionário industrial produz, em média, um pouco mais do que há dois anos.

Uma visão mais precisa da produtividade nós temos quando analisamos não a quantidade de trabalhadores, mas o número de horas pagas.

Em 2010, a produção industrial cresceu 10,5%, enquanto o número de horas pagas aumentou apenas 4,1%. O crescimento da produtividade do trabalho – que é quanto a produção avançou a mais do que as horas pagas – foi de 6,1%.

A partir de 2011, no entanto, o setor murchou. A produção cresceu 0,4% naquele ano, e as horas pagas, 0,3%. A produtividade ficou praticamente estagnada.

Em 2012, quando a produção caiu 2,5%, as horas pagas caíram 1,9%. Logo, a produtividade caiu 0,6%.

No ano passado, a indústria aumentou a produção em apenas 1,2%, de modo que a produtividade do trabalho cresceu 2,4%.

Existem várias formas de aumentar a produtividade. A melhor delas é fazer a produção crescer mais do que o número de horas pagas, como ocorreu em 2010. A pior é fazer o número de horas pagas diminuir mais do que a produção – foi o que aconteceu no biênio 2012-2013.

A opção por reduzir o trabalho mais do que a produção é uma tentativa de se adaptar à nova realidade do país, de crescimento econômico baixo. Como os custos de demissão são altos por causa da legislação trabalhista, as demissões indicam que os empresários preveem uma atividade fraca por mais algum tempo.

Folha de pagamento

O curioso é que, mesmo reduzindo o número de horas pagas, a folha de pagamento da indústria continuou aumentando. Subiu 1,2% no ano passado e acumulou uma alta de 5,7% desde 2012.

Isso ocorreu porque o desemprego seguiu em baixa em 2013. O que a indústria demitia, os serviços absorviam. Portanto, a pressão sobre os não diminuiu. Os reajustes salariais que a indústria se viu forçada a conceder mais do que compensaram a economia que as empresas industriais tentava, fazer por meio do corte de custos.

Em novembro do ano passado, no entanto, a indústria conseguiu reduzir, pela primeira vez desde 2010, reduzir a folha de pagamento por trabalhador.


Preços de 78 produtos sobem mais que o dobro da inflação; veja lista
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Sílvio Guedes Crespo

Com alta de 61%, o preço do chá é um dos que mais subiram

Com alta de 61%, o preço do chá é um dos que mais subiram

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Os preços de 78 produtos e serviços, nos últimos 12 meses, subiram mais do que o dobro da inflação, que foi de 5,59% no período, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

No total, o IBGE pesquisa, em seu índice oficial, 373 produtos e serviços, dos quais 331 ficaram mais caros nos últimos 12 meses e outros 42 tiveram queda de preço.

Entre os produtos que mais subiram, a maior parte é de alimentos. O pão francês e o macarrão ficaram 15% mais caros em um ano. A farinha de trigo aumentou 27%, e a tangerina, item com maior alta de todos os pesquisados, disparou 70%.

 

Acima da inflação – produtos selecionadosVariação em 12 meses (%)
 TANGERINA69,94
 CHÁ60,76
 FARINHA DE TRIGO27,36
 CENOURA22,25
 ABACAXI19,91
 MELANCIA16,83
 MACARRÃO15,07
 PÃO FRANCÊS14,78
 AZEITE DE OLIVA14,04
 ESTACIONAMENTO13,01
 CIGARRO12,9
 QUEIJO12,78

 

Na outra ponta, entre os bens e serviços com maior redução de preço estão o feijão-mulatinho (-25%, maior queda entre as mercadorias pesquisadas), a passagem aérea (-14%) e o açúcar refinado (-12%).

 

Abaixo da inflação – produtos selecionadosVariação em 12 meses (%)
 FEIJÃO-MULATINHO-25,49
 FEIJÃO-CARIOCA (RAJADO)-24,59
 TOMATE-18,54
 PASSAGEM AÉREA-14,06
 AÇÚCAR REFINADO-11,81
 AUTOMÓVEL USADO-2,16
 TELEVISOR-1,81
 TELEFONE FIXO-0,95
 ÔNIBUS URBANO-0,3
 METRÔ0,01
 PEDÁGIO0,21

 

A lista completa pode ser baixada no site do IBGE.

Opinião

Os preços que mais têm subido são os dos produtos que as pessoas compram diária ou semanalmente, como o pão, o queijo e outros alimentos, a refeição fora de casa, o estacionamento etc.

Já os preços que, segundo o IBGE, caíram ou subiram menos que a média, são os de mercadorias ou serviços com os quais a gente se depara menos, como passagem aérea (-14,06%), automóvel novo (alta de 2,68% em 12 meses) e usado (queda de 2,16%), moto (+1,14%), televisão (-1,81%) e outros.

Há, ainda, os preços controlados pelo governo, entre os quais se incluem emplacamento e licença de veículos (-3,39%), multa (0%), pedágio (0,21%), correio (1,66%) e telefone fixo (-0,95%). De acordo com a Tendências Consultoria Integrada, os preços administrados variaram em média 2,13% em um ano, enquanto os livres subiram 6,63%.

Esta pode ser uma explicação para a sensação, que em geral temos, de que a inflação é muito maior do que dizem os institutos de pesquisas. Quando vamos ao supermercado, à padaria e aos restaurantes, vemos reajustes bem maiores do que 5,59%.

É verdade que há alimentos na lista das maiores quedas, como o tomate. Mas o preço de determinadas frutas varia muito, tanto para cima quanto para baixo. O próprio tomate, no começo do ano passado, era um dos líderes de inflação, segundo o mesmo IBGE.

Tenho notado que, a cada notícia sobre inflação publicada no UOL, muitos leitores dizem que os dados estão errados. Acredito que a grande dispersão dos resultados, com os preços do dia a dia subindo mais que o dobro da inflação e outros bens em queda, provoque essa sensação.

Quando converso com economistas, não vejo a mesma desconfiança que os leitores têm em elação aos índices de preços. Há críticas quanto a outros dados do governo, particularmente aqueles relativos ao superavit primário – dinheiro que o governo destina ao pagamento de juros da dívida pública.

Existem, ainda, reclamações em relação à forma de classificar os desempregados. Por exemplo, as pessoas que não têm emprego e deixaram de procurar trabalho porque perderam a esperança são consideradas inativas pelo IBGE, e não desempregadas. (Tal metodologia, por sinal, está sendo revista.)

Mas em relação à inflação, vejo economistas de diferentes matizes ideológicas trabalhando com os dados do IBGE. Investidores, analistas e consultores usam esses números para tomar decisões ou fazer recomendações aos seus clientes.

O Fundo Monetário Internacional (FMI), que fez uma reclamação formal sobre o cálculo da inflação na Argentina, usa os índices de preços do Brasil em seus estudos, sem objeções.

A revista “The Economist”, que deixou de publicar semanalmente a inflação da Argentina, por desconfiar dos dados, não fez questionamentos aos números oficiais do Brasil.

A primeira coisa que se deve fazer para saber se o IBGE está ou não informando corretamente os preços é comparar seus dados com os de outras instituições.

Enquanto o IPCA registrou alta de 5,59% nos últimos 12 meses, o IGP-M e o IPC-S, ambos calculados pela Fundação Getulio Vargas (FGV), marcaram aumento de 5,66% e de 5,61%, respectivamente.

O IPC da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), que mede a inflação em São Paulo, constatou reajuste de 3,66% no mesmo período. O Índice do Custo de Vida (ICV), do Dieese, marcou alta de 6,04% nos preços.

Temos, então, os indicadores da FGV, da Fipe e do Dieese registando uma variação próxima à do IBGE. A diferença entre o índice oficial e os demais é pequena, se considerarmos que as pesquisas têm metodologias diferentes e, por isso mesmo, não devem trazer resultados idênticos.

É preciso lembrar, ainda, que os índices de inflação refletem o que os institutos acreditam ser o hábito de consumo médio das pessoas. Por exemplo, o IBGE considera que a alimentação em casa representa 16% dos gastos mensais de uma família, e que as refeições fora correspondem a 8,5%.

Se uma pessoa almoça e janta fora todo dia, e quase não come em casa, a inflação dos produtos que ela consome certamente vai ser maior, pois a refeição fora de casa subiu mais. Se ela sempre deixa o carro em estacionamentos, também vai sentir um pacto maior no bolso.

Para saber, definitivamente, se as pesquisas de inflação refletem ou não o que cada um vê no dia a dia, a melhor dica é de um leitor que assina como Dinto:

“Esse índice é confiável ou não? Depende! Cada família tem o seu ‘índice de inflação próprio’. Dá um pouco de trabalho, mas é muito simples: em um mês, anote TUDO MESMO em que você gastou o seu rico dinheirinho. No mês seguinte, faça a mesma coisa e compare, mas com a mesma quantidade de produtos. Essa é a SUA inflação, sem viés e sem categorização por classe de consumo.”


Dilma poupa menos que Lula e mais que FHC para pagar juros
Comentários 79

Sílvio Guedes Crespo

Atualizado às 9h28*

Lula, Dilma e FHC ao embarcar para o velório de Mandela, em dezembro

Lula, Dilma e FHC antes de embarcar para o velório de Mandela, em dezembro

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Com ou sem truques contábeis, nos três primeiros anos do governo Dilma Rousseff as contas do país ficaram menos equilibradas do que no período do seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, e mais do que no tempo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Se avaliarmos desde Fernando Collor de Mello, o período em que o país manteve suas contas públicas mais equilibradas foi o de Lula, seguido por Itamar Franco, Dilma, FHC e, por último, Collor.

Esse ranking é confirmado tanto pelos dados que o governo anuncia quanto pelos números que neutralizam a prática conhecida como “contabilidade criativa” – o uso de medidas não convencionais para inflar o registro das receitas e reduzir o das despesas.

Em 2013, o governo federal e o Banco Central reservaram R$ 75 bilhões de suas receitas (inclusive as extraordinárias) para pagar juros, o que equivale a 1,6% do PIB (produto interno bruto). Na média dos três anos de Dilma, a proporção ficou em 1,9% do PIB.

Nos oito anos de Lula, a média foi de em 2,2% (sendo 2,4% no primeiro mandato e 2% no segundo). No período FHC, foi de 1,1% (0,3% no primeiro e 1,9% no segundo). Com Itamar, a proporção ficou em 2%, e com Collor, 1%.

superavit primario por presidente 1

Deve-se notar, porém, que, desde 1999, quando foram criadas as metas, o superavit primário vinha caminhando bem, sempre em torno de 2%, 3% ou mais, o que possibilitou diminuição da dívida como proporção do PIB. No governo Dilma, no entanto, o superávit primário recuou para menos de 2% do PIB, o que não ocorria desde 1998.

supravit primario historico

‘Contabilidade criativa’

Nos últimos anos, o governo tem sido criticado por antecipar receitas para aumentar o superávit primário. Por exemplo, as estatais iriam pagar dividendos ao Tesouro em 2013, mas o governo decidiu que elas antecipassem o pagamento para dezembro do ano anterior, de modo que as contas ficassem equilibradas nas planilhas de 2012.

Além disso, não entram na conta os gastos do governo com empréstimos subsidiados, observa o economista Felipe Salto, da Tendências Consultoria Integrada. “É por meio da contabilização das receitas [antecipadas de dividendos] e da não contabilização dos subsídios das operações do BNDES, por exemplo, que o Tesouro fabricou os montantes elevados de dividendos nos últimos anos”, afirma (leia entrevista mais abaixo).

Desse modo, ele calcula o Primário Efetivo Tendências (PET), série de dados que mostra qual seria o superávit primário do setor público se o governo não antecipasse dividendos nem deixasse de contabilizar os empréstimos subsidiados.

O PET desconta, ainda, a receita de R$ 32 bilhões que o Tesouro teve com a Petrobras em 2010. Naquele ano, a estatal pagou R$ 75 bilhões ao governo, que, em contrapartida, colocou R$ 43 bilhões na companhia para manter-se como sócio majoritário após a capitalização da petrolífera.

pet

Pela série PET, o superávit primário médio do setor público durante o governo Dilma cai de 2,5% para 2,1% do PIB. Já no período Lula, desce de 3,2% para 3%. Esses dados se referem às contas da União, Estados, municípios e estatais. O PET não tem uma série apenas para o governo federal.

Outra crítica à política atual se refere ao uso de receitas extraordinárias para fazer superávit primário, como as concessões de infraestrutura, os leilões do pré-sal e o Refis, programa que deu desconto para as empresas quitarem antecipadamente suas dívidas com a União.

A analista de finanças públicas Vilma da Conceição Pinto, da Fundação Getulio Vargas, calculou o esforço fiscal do setor público, ou seja, quanto foi reservado dos impostos para pagar juros. Como Salto, da Tendências, ela descontou as antecipações de dividendos e o pagamento da Petrobras. A diferença é que ela retirou, também, as receitas extraordinárias com concessões, outorgas e Refis, conforme o gráfico abaixo.

superavit primario decomposto fgv vilma conceicao pinto 01

De acordo com esse cálculo, o setor público fez um esforço fiscal de apenas 1,6% do PIB durante o governo Dilma e de 2,9% no período Lula. A série se inicia em 1997, de modo que não se pode calcular a média de todo o governo FHC. Nos seis anos disponíveis (1997-2002), o esforço fiscal foi de 1,5% do PIB.

Entrevista

O economista Felipe Salto, da Tendências, deu a seguinte entrevista a este blog.

Sílvio Crespo: O governo FHC fez um esforço fiscal menor do que o governo Dilma. Por que, então, as críticas de que ela está sendo mais leniente com esse problema?

Felipe Salto: São dois momentos diferentes. Em primeiro lugar, as metas anuais de superavit primário só vieram em 1999. Então, você pode comparar os dois períodos (Dilma e FHC), mas tem que fazer essa ressalva.

SC: Por quê?

O ponto é: naquele momento, era possível gerar um superavit primário de 3% do PIB? Com crescimento baixo, sem regras anuais, sem a renegociação da dívida dos Estados, não havia condições. A Lei de Responsabilidade Fiscal é de maio de 2000. Antes disso, não tínhamos condições.

O que dá para criticar é que as metas de superavit primário poderiam ter sido estabelecidas desde 1994. Naquela época já se sabia que, mesmo controlando a inflação inercial, seria necessário controlar a parte fiscal.

SC: Como o senhor vê a situação atual?

FS: Hoje, a crítica é outra. Uma vez que já existia um regime funcionando, o governo abandonou essas regras e não colocou nada no lugar.

O custo da dívida está aumentando a todo vapor. As taxas bateram quase 7%, mesmo nos títulos mais longos. O mercado está dizendo: ‘Esse regime fiscal novo é pior. Gera um esforço fiscal menor’.

Opinião

Dilma abandonou um regime que estava dando certo, como disse Felipe Salto.

Não faltam sinais de que a “nova matriz econômica” não deu frutos. Durante o atual governo, o PIB desacelerou, a inflação aumentou, as contas externas pioraram, a indústria encolheu e os juros voltaram a subir. O modelo precisa mudar.

Isso posto, não custa lembrar um pouco do nosso passado. FHC, um defensor da responsabilidade fiscal, enfrentou uma situação interna e externa adversa durante o seu governo. Mas, no seu primeiro mandato, quando o superavit primário federal foi de apenas 0,3% do PIB, o presidente tinha também outro objetivo muito claro: convencer o Congresso a aprovar a reeleição.

De 1991 até hoje, o único ano em que o governo federal não conseguir fazer superavit primário foi 1997, quando a emenda da reeleição passou no Legislativo.

* Acrescentado o item ‘Opinião’ às 9h28